Receita revela que Master e Vorcaro movimentaram R$ 12,2 bilhões em fundos de investimento em oito anos

Dados da Receita Federal mostram que Daniel Vorcaro e o Banco Master aplicaram R$ 12,2 bilhões em fundos de investimento entre 2017 e 2025. Os recursos foram distribuídos em 184 contas de 67 fundos diferentes. As informações foram enviadas à CPMI do INSS, encerrada no dia 27 de março, e revelam o tamanho da engrenagem financeira sob investigação.

Do total investido, 44% — cerca de R$ 5,3 bilhões — foram direcionados a fundos ligados à Reag Investimentos. A gestora também é alvo da Operação Compliance Zero, a mesma que levou Vorcaro à prisão em 4 de março. Além disso, a Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investiga a máfia dos combustíveis e conexões com o PCC. Em janeiro, o Banco Central decretou a liquidação da empresa. Já os fundos ligados à Trustee receberam a maior fatia absoluta: R$ 6,3 bilhões, equivalentes a 52% do total.

No mesmo período, o Master sacou R$ 6,8 bilhões das aplicações. Vorcaro, por sua vez, retirou R$ 581 milhões. A suspeita dos investigadores é de que a Reag ajudou a estruturar fundos usados para movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos — com indícios de fraude e lavagem de dinheiro.

Os fundos que mais receberam dinheiro

As maiores aplicações do Master foram feitas em dois fundos nos quais o próprio banco aparece como dono. O primeiro é o FIDC Scarlet, administrado pela Reag, que recebeu R$ 2,5 bilhões. O segundo é o Montenegro FIDC, administrado pela Trustee, que recebeu R$ 2,4 bilhões. Diferentemente do Scarlet, que tem cinco cotistas, o Montenegro possui apenas um — o próprio Master.

Já o principal destino dos recursos pessoais de Vorcaro foi o fundo Hans II FIP, controlado pela Reag Trust. O fundo é comandado por João Mansur, suspeito de participar da lavagem de dinheiro para o banco e para o PCC. Vorcaro enviou R$ 1,2 bilhão ao Hans II, que em dezembro de 2025 tinha patrimônio de R$ 3,6 bilhões.

Contudo, esse valor despencou para R$ 83 milhões após uma reavaliação. O Hans II investia em outro fundo, o Jaya, que aplicava no Jade. Este último concentrava recursos em ações da Golden Green, empresa da família Vorcaro ligada a créditos de carbono. Quando reportagens revelaram que a Reag manteve avaliações bilionárias mesmo ciente de fraudes nos ativos, o valor do Jade foi zerado. Por consequência, o Hans II perdeu quase todo o patrimônio declarado.

Lucros de R$ 440 milhões em operações relâmpago

Os dados da Receita também revelam lucros extraordinários obtidos por Vorcaro em operações entre fundos da Reag. Em 27 de dezembro de 2023, ele comprou cotas do Hans II por R$ 2,5 milhões. No dia seguinte, vendeu esses ativos para o fundo Itabuna por R$ 294,5 milhões. Em outras palavras, o valor se multiplicou 116 vezes em 24 horas — uma valorização de 11.474%.

Na mesma linha, em maio de 2023, Vorcaro adquiriu cotas do Hans II por R$ 10 milhões. Uma semana depois, vendeu tudo para o fundo Astralo 95 por R$ 160 milhões — ganho de 1.500%. Somadas, as duas operações renderam lucro de quase R$ 442 milhões. O capital investido se multiplicou 36 vezes.

De fato, o Astralo 95 reaparece em outro capítulo das investigações. Como já revelou o g1, Vorcaro transferiu R$ 700 milhões em ativos do Master para uma offshore nas Ilhas Cayman em 2025. A maior parte desse valor — R$ 555,7 milhões — saiu da GSR Fundo de Investimento, cujo único acionista é justamente o Astralo 95.

Entre os fundos ligados a Vorcaro, consta ainda o Galo Forte FIP — por meio do qual o banqueiro detém participação no Atlético-MG. O aporte foi de R$ 240 milhões, e o patrimônio do fundo estava avaliado em R$ 293 milhões em dezembro de 2025.