O Ministério Público de São Paulo afirma que fintechs instaladas na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima continuaram sendo usadas para ocultar dinheiro do crime organizado mesmo após operações anteriores contra o esquema. Segundo os investigadores, movimentações suspeitas já chegam a quase R$ 26 bilhões.
A nova etapa da investigação, batizada de “Operação Fluxo Oculto”, foi deflagrada nesta quinta-feira (28) pelo Gaeco e pela Receita Federal. A ação é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, realizada em 2025, que apontou ligações entre o setor de combustíveis, empresas financeiras digitais e integrantes do Primeiro Comando da Capital.
De acordo com o MP, o grupo não apenas manteve as atividades ilegais após as primeiras investigações, como também ampliou o esquema. Os promotores afirmam que houve crescimento no desvio de solventes petroquímicos usados para adulterar combustíveis, além da criação de novas empresas de fachada para esconder recursos ilícitos.
Como funcionava o esquema investigado pelo MP
A operação desta quinta-feira cumpriu 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Os principais alvos são empresários, operadores logísticos e suspeitos de atuar como “laranjas” do esquema.
Segundo a investigação, fintechs e plataformas de pagamento atuavam como verdadeiros “dutos financeiros” para lavar dinheiro. O mecanismo central envolvia o uso das chamadas “contas-bolsão”, sistema em que valores de diversos clientes são concentrados em uma única conta registrada em nome da fintech.
Na prática, isso dificultava o rastreamento do dinheiro por órgãos como Banco Central e Coaf. O MP afirma que as informações sobre os verdadeiros donos dos recursos ficavam escondidas apenas nos sistemas internos das empresas.
Com autorização judicial para acessar as chamadas “contas gráficas”, os investigadores conseguiram mapear origem, destino e beneficiários das transações. Segundo os promotores, o modelo criava uma espécie de “ponto cego” para os mecanismos de combate à lavagem de dinheiro.
Entre as empresas citadas na investigação estão BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. Apenas uma das fintechs investigadas teria movimentado mais de R$ 1,2 bilhão.
Os relatórios de inteligência financeira também apontam conexões indiretas com integrantes ligados ao PCC e empresas já investigadas em outras operações contra organizações criminosas.
Outro braço da operação mira a chamada “máfia do nafta”, esquema que utilizava solventes petroquímicos importados — com tributação mais baixa — para produzir combustível adulterado vendido ilegalmente como gasolina.
Segundo o MP, empresas emitiam milhares de notas fiscais falsas para encobrir o trajeto do produto. Na realidade, o material era desviado diretamente para distribuidoras e misturado à gasolina antes da revenda aos consumidores.
As investigações indicam o desvio de mais de 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos. O prejuízo estimado com sonegação fiscal supera R$ 200 milhões.
Os promotores afirmam ainda que fundos de investimentos eram usados como etapa final do processo de lavagem de dinheiro. Esses fundos, segundo a investigação, serviam para dar aparência legal aos pagamentos ligados ao esquema de adulteração de combustíveis.
Até o momento, parte das defesas dos investigados não havia sido localizada. Os nomes de Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, aparecem como lideranças do esquema. Ambos seguem foragidos desde 2025.
A operação reforça a preocupação das autoridades com a infiltração do crime organizado em setores estratégicos da economia brasileira, especialmente no mercado financeiro digital e no setor de combustíveis.
