Promotor do MP vê risco diplomático após EUA classificarem PCC e CV como grupos terroristas

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais já provoca preocupação entre autoridades brasileiras ligadas ao combate ao crime organizado. Para o promotor Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há duas décadas, a medida anunciada pela gestão de Donald Trump pode gerar impactos diplomáticos, financeiros e até riscos à soberania brasileira.

Em entrevista ao podcast “O Assunto”, do g1, Gakiya afirmou que não enxerga benefícios práticos na decisão americana e alertou para a possibilidade de ações secretas conduzidas pelos EUA em território brasileiro.

Segundo o promotor, o principal temor é a mudança na condução das investigações internacionais. Até então, operações envolvendo facções brasileiras eram acompanhadas principalmente por órgãos policiais americanos, como o FBI e a DEA. Com a nova classificação, a tendência é que a atuação passe a envolver diretamente a CIA e setores militares dos Estados Unidos.

Para Gakiya, isso pode reduzir a transparência e dificultar o intercâmbio de informações entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado.

Sistema financeiro brasileiro também entra no radar

O promotor também chamou atenção para possíveis efeitos econômicos da decisão. Isso porque investigações recentes do Ministério Público de São Paulo apontaram esquemas bilionários de lavagem de dinheiro ligados ao PCC envolvendo fintechs, postos de combustíveis e fundos financeiros.

A preocupação é que instituições financeiras brasileiras acabem sendo atingidas indiretamente por sanções internacionais, mesmo sem participação direta em atividades criminosas.

Nos bastidores do governo brasileiro, o tema também gerou desconforto. A classificação das facções como organizações terroristas ocorreu dias após o senador Flávio Bolsonaro se reunir com Trump e integrantes do Departamento de Estado em Washington.

O anúncio foi interpretado por setores do Palácio do Planalto como um movimento sensível do ponto de vista diplomático, especialmente porque o governo brasileiro não teria sido previamente comunicado sobre a medida.

A nova estratégia dos EUA faz parte de uma política mais ampla adotada pela Casa Branca contra cartéis e organizações criminosas da América Latina. O governo americano passou a tratar o narcotráfico como tema de segurança nacional, ampliando a possibilidade de sanções econômicas e operações internacionais.

Especialistas em relações internacionais avaliam que o debate agora deve se concentrar nos limites da cooperação entre os países e no impacto que a decisão pode ter sobre o sistema financeiro brasileiro, acordos de inteligência e soberania nacional.