Nesta terça-feira, 4 de agosto de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a revogação do visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora do Brasil em Washington. A medida, confirmada por autoridades norte-americanas e pelo governo brasileiro, representa o mais recente capítulo de uma deterioração acelerada nas relações bilaterais entre os dois países, em pleno ano eleitoral no Brasil.Segundo um alto funcionário do Departamento de Estado, que falou sob condição de anonimato, a decisão constitui uma “ação recíproca”.
Washington aponta duas razões principais: a demora do governo brasileiro em conceder o agrément — a aprovação diplomática formal exigida pela Convenção de Viena — ao indicado de Donald Trump para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, e a recusa de vistos a dois diplomatas americanos que pretendiam visitar o Brasil no mês passado.
Daniel Perez, presidente da Câmara dos Representantes da Flórida e aliado próximo do secretário de Estado Marco Rubio, foi nomeado por Trump em 1º de junho. O posto em Brasília está vago desde janeiro de 2025.
Autoridades americanas afirmam que o Brasil sinalizou que só analisaria o pedido após as eleições presidenciais de outubro, o que consideram inaceitável. “Demos todas as oportunidades ao governo brasileiro de fazer a coisa certa, mas eles continuamente atrasaram e ofuscaram”, declarou um porta-voz do Departamento de Estado.
A segunda justificativa refere-se à negativa de vistos a Riley Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e a um de seus assessores. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou os funcionários de intenções de “interferir” nas eleições brasileiras, alegação classificada pelos EUA como “infundada”.Importante destacar que a revogação do visto não equivale à expulsão. Viotti não foi declarada persona non grata. Ela pode permanecer nos Estados Unidos, embora sem visto válido.
Caso deixe o país, precisará solicitar um novo documento para retornar. Autoridades americanas deixaram claro que o visto será restabelecido imediatamente se o Brasil conceder o agrément a Perez.O governo brasileiro reagiu com dureza. Em nota oficial da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), o Planalto repudiou a decisão e classificou as justificativas americanas como “falsas”.
“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”, afirmou o comunicado. O texto acrescenta que “fica óbvio o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
Brasília argumenta que seguiu as normas internacionais: o nome de um embaixador só deve ser anunciado publicamente após a concessão do agrément, e não há prazo definido pela Convenção de Viena para essa aprovação. O pedido americano, segundo o governo, ainda está em análise.
A crise atual não surgiu do nada. Nos últimos meses, as relações foram abaladas pela reimposição de tarifas comerciais pelos EUA sobre produtos brasileiros e pela designação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Esses movimentos geraram retaliações e discursos cada vez mais duros de ambos os lados. A disputa diplomática se tornou, inclusive, elemento presente no debate eleitoral brasileiro, previsto para 4 de outubro.
Especialistas em relações internacionais apontam que a medida afeta a capacidade operacional da embaixada brasileira em Washington, embora Viotti continue formalmente como chefe da missão. Na prática, a ausência de visto válido limita deslocamentos e pode complicar a rotina diplomática. Do lado americano, a demora na aprovação de Perez deixa a representação em Brasília sem embaixador titular há mais de um ano e meio.
O governo brasileiro já indicou que adotará medidas de reciprocidade. Reuniões no Itamaraty e no Palácio do Planalto nesta quarta-feira (5) devem definir a resposta concreta. Analistas observam que opções incluem a revogação do visto do encarregado de negócios americano em Brasília ou restrições semelhantes a diplomatas norte-americanos.
A tensão ocorre em um momento delicado. Com as eleições brasileiras se aproximando, qualquer gesto diplomático ganha contornos políticos. Lula tem usado o discurso de soberania e de rejeição a interferências externas. Já a administração Trump, em seu segundo mandato, adota postura mais assertiva em relação a países da América Latina, priorizando alinhamentos ideológicos e comerciais.
Maria Luiza Ribeiro Viotti, diplomata de carreira com longa experiência, inclusive na ONU, encontra-se agora em posição inédita. Sua permanência nos EUA depende do desfecho do impasse. Enquanto isso, o diálogo entre Brasília e Washington se reduz a comunicações formais e notas públicas.
O episódio reforça o diagnóstico de que as relações Brasil-Estados Unidos atravessam uma de suas fases mais tensas em décadas. Com eleições no horizonte e interesses comerciais em jogo, a capacidade de ambos os governos de desescalar o conflito será testada nas próximas semanas. Por enquanto, a revogação do visto da embaixadora simboliza o aprofundamento de uma crise que já ultrapassou as fronteiras da diplomacia tradicional e invadiu o terreno da política doméstica.
