Lula evita o próprio legado — e isso, ao menos, é um serviço ao Brasil

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By LatAm Reports Staff Writers

Na abertura oficial da campanha eleitoral de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva opta por uma narrativa seletiva. Fala de soberania, terras raras, indústria de defesa, educação em tempo integral e cuidados com idosos. Repete que “quem fez pode prometer mais”. Mas dedica tempo notavelmente menor a um balanço franco e detalhado do que de fato entregou entre 2023 e 2026. Essa omissão não é acidente de percurso. É estratégia. E, paradoxalmente, pode ser o mínimo que o país merece neste momento.

O terceiro mandato de Lula começou sob a promessa de “reconstrução”. Houve avanços reais: o retorno do Brasil ao mapa da fome em certas medições, a recuperação do emprego formal, a valorização do salário mínimo e a expansão de programas sociais. A reforma tributária avançou. Algumas obras do PAC saíram do papel. Esses fatos existem e não devem ser apagados. O problema é que o presidente e sua campanha preferem tratá-los como se bastassem para ofuscar o restante do quadro.

A dívida pública bruta saltou para patamares próximos de 82% do PIB, o mais alto desde a pandemia. O arcabouço fiscal, apresentado como âncora de responsabilidade, mostrou-se elástico demais diante da pressão por gastos. A rejeição ao governo permanece elevada — em torno de 46% a 52%, conforme pesquisas recentes —, mesmo após pacotes bilionários de crédito, isenções e benefícios lançados em sequência desde 2025. Escândalos no INSS e investigações que alcançam o entorno familiar do presidente corroem a narrativa de moralidade pública que o petismo sempre reivindicou. A burocracia, que o próprio Lula critica em público, continua emperrando entregas. O crescimento econômico, embora positivo em alguns trimestres, não acompanhou a magnitude dos anúncios.

Diante desse quadro misto e, em pontos centrais, preocupante, a campanha prefere o futuro genérico e o contraste com o bolsonarismo. É legítimo atacar o adversário. É compreensível invocar a soberania diante de pressões externas. O que não é aceitável é transformar a reeleição em exercício de amnésia seletiva. Quando Lula dedica mais minutos a prometer fábricas de drones e proteção de minerais críticos do que a explicar por que a trajetória fiscal se deteriorou ou por que a popularidade não acompanha o volume de gastos, ele está dizendo, nas entrelinhas, que o balanço do próprio governo não resiste a um escrutínio rigoroso.

Essa hesitação tem custo democrático. O eleitor brasileiro tem o direito de ouvir do presidente em exercício uma defesa clara, quantificada e sem rodeios do que foi feito — e do que não foi. Tem o direito de saber por que a máquina pública continua travada, por que a sensação de insegurança persiste em grandes centros e por que o endividamento cresceu apesar do discurso de responsabilidade. Ao desviar o foco para o “Lulinha arretado” do quarto mandato, o presidente trata o terceiro como um intervalo inconveniente, e não como a base de legitimidade que deveria ser.

Há quem veja nessa estratégia apenas pragmatismo eleitoral. Afinal, pesquisas ainda colocam Lula à frente, e o campo da direita disputa espaço entre si. Mas o pragmatismo tem limites. Um presidente que busca o quarto mandato não pode se comportar como se o atual fosse um detalhe. A recusa em defender o legado com a mesma ênfase com que promete o futuro revela uma avaliação interna: o produto atual não é facilmente vendável.

Por isso, a omissão, ainda que criticável do ponto de vista da transparência, acaba sendo o mínimo que o Brasil pode esperar. Melhor o silêncio relativo sobre um balanço incompleto do que a tentativa de reescrevê-lo com hipérboles. Melhor a campanha centrada em promessas do que a tentativa de transformar indicadores ambíguos em vitória inequívoca. Em um país cansado de narrativas absolutas — tanto as do “tudo deu certo” quanto as do “tudo deu errado” —, a contenção de Lula em relação ao próprio governo é, ao menos, um reconhecimento tácito da complexidade da realidade.

O eleitor não precisa de mais um ciclo de marketing que transforma gestão em mito. Precisa de responsabilidade. Se o presidente acredita de fato que entregou mais do que prometeu, deveria ter a coragem de colocar os números na mesa, defender ponto a ponto e aceitar o contraditório. Se prefere não fazê-lo, que ao menos não force a nação a engolir uma versão maquiada. Nesse sentido restrito, a cautela de Lula com o próprio recorde é o mínimo que se pode exigir de quem pretende governar por mais quatro anos. O Brasil merece, no entanto, muito mais do que o mínimo.