O presidente da Argentina, Javier Milei, desembarca nesta sexta-feira à noite em São Paulo para prestar apoio público ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, na convenção nacional do Partido Liberal marcada para este sábado. A visita, de forte carga simbólica, marca a tentativa de expandir a influência da direita regional e dar fôlego à campanha do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta dificuldades nas pesquisas e isolamento de parte do centrão.
Segundo a agenda confirmada por fontes próximas, Milei se reunirá na manhã de sábado com Flávio Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, no Palácio dos Bandeirantes. À tarde, participa da convenção do PL, onde Flávio deve ser oficializado como candidato. Tarcísio ainda concederá a Milei a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do estado, reforçando laços entre lideranças liberais e conservadoras.
A presença do argentino ocorre em meio a tensões. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, proibiu a visita de Milei ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. A decisão, tomada após pedidos da defesa, gerou críticas imediatas nas redes sociais. “A absurda proibição da visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro”, escreveu o usuário Almir Fornari em post que circulou amplamente. Outro destaque veio do correspondente Ivan Kleber: “O presidente Milei desembarca na noite desta sexta (24) em São Paulo. Amanhã pela manhã, ele participa de uma reunião com o senador Flávio Bolsonaro e com o governador Tarcísio de Freitas e à tarde ele participa da convenção do PL.”
Flávio Bolsonaro, por sua vez, já havia celebrado o apoio argentino em interações anteriores. Em junho, respondeu a uma publicação de Milei afirmando que “a onda azul também chegará ao Brasil” e prometendo “tesouraço nos impostos, na burocracia e na corrupção”. O senador agradeceu publicamente o presidente argentino, reforçando a narrativa de alinhamento ideológico.
Nas redes, as reações se dividem entre entusiasmo da base conservadora e cautela da oposição. A jornalista e produtora Linda Sod destacou o medo do “apoio internacional que Flávio angariou” — citando Trump, Milei e Israel — e classificou investigações recentes como “escândalo fabricado”. Já o Planalto monitora a visita de perto. Segundo reportagens, o governo prepara reação caso haja ataques a Lula durante os eventos.
A convenção ocorre em momento delicado para Flávio. Pesquisas recentes mostram o senador atrás de Lula em um eventual segundo turno, após liderança técnica em abril. Escândalos, como a investigação sobre financiamento do filme biográfico Dark Horse envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, e rixas familiares enfraqueceram a campanha. Partidos do centrão, como PP e União Brasil, têm sinalizado neutralidade, limitando o tempo de TV e a estrutura eleitoral do PL.
Analistas veem na visita de Milei uma aposta de projeção internacional. O argentino, que venceu em 2023 e inspirou vitórias conservadoras na região, espera estender a “maré azul”. Ele seguirá depois para Peru e Colômbia, para cerimônias de posse de aliados. “Having Milei at the convention helps energize and mobilize the party’s more ideological base”, comentou o analista Silvio Cascione, da Eurasia Group, em declarações recentes.
Do lado do governo Lula, a estratégia tem sido isolar o adversário. Emissários petistas negociam com o centrão pactos de não agressão, visando futuras alianças. A presença de um chefe de Estado estrangeiro endossando o rival, porém, eleva a temperatura. O Planalto evita confronto direto, mas fontes internas afirmam que qualquer interferência será respondida com diplomacia firme.
A visita também reacende debates sobre soberania e relações bilaterais. Brasil e Argentina mantêm laços econômicos importantes, mas as diferenças ideológicas entre Milei e Lula são abissais. Milei critica abertamente o “socialismo” e defende cortes drásticos de gastos, enquanto o brasileiro prioriza políticas sociais e integração regional sob outros parâmetros.
Nas redes sociais, o tema domina as discussões políticas nesta sexta. Contas de esquerda alertam para “ingerência estrangeira”, enquanto a direita celebra o “palanque internacional”. Um post da Folha de S.Paulo resumiu o clima: “Terminou a Copa do Mundo, começa agora outra disputa… Tem até um argentino no meio, que dessa vez não é o Messi, mas o presidente Javier Milei, convidado de honra da convenção do Flávio Bolsonaro.”
Espera-se que o discurso de Milei na convenção enfatize temas comuns: combate à criminalidade, redução de impostos e crítica ao “sistema”. Flávio tem adotado propostas inspiradas em modelos como o de Nayib Bukele, em El Salvador, e promete privatizações.
Para o eleitorado, a imagem de unidade conservadora pode mobilizar a base, mas analistas duvidam que mude significativamente o cenário nacional. “Essas eleições dependem de Lula escorregar na casca de banana”, resumiu o analista Rafael Favetti. Com a convenção neste sábado, o endosso argentino entra para a história da campanha de 2026 como um dos momentos de maior projeção externa da disputa.A chegada de Milei reforça o caráter polarizado da eleição e a internacionalização da direita latino-americana. Resta saber se o impulso simbólico se traduzirá em votos em outubro.
