Escândalo em colégio tradicional do Rio: lista secreta “classificava” alunas como se fossem mercadoria — e polícia já investiga

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By LatAm Reports Staff Writers

Uma denúncia chocante colocou um dos colégios mais tradicionais da Zona Oeste do Rio, o Cruzeiro, em Jacarepaguá, no centro de uma investigação policial. Alunos da escola teriam criado, em uma plataforma on-line de “tier list” — ferramenta normalmente usada para ranquear personagens de jogos ou times de futebol —, uma lista que classificava colegas de sala em categorias sexuais degradantes.

Segundo apuração do g1, que teve acesso a imagens da lista, as adolescentes eram divididas em rótulos como “GOAT” (a sigla em inglês para “a melhor de todos os tempos”), “comeria no lucro”, “bêbado vai”, “me arrependi depois” e “nem olharia”. Expressões que, na prática, reduziam meninas — muitas delas menores de idade — a itens de consumo, avaliadas por sua aparência e por quão “aceitável” seria fazer sexo com elas.

O caso já está nas mãos da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav), que abriu inquérito para apurar responsabilidades. A lista foi retirada do ar depois que o colégio denunciou o conteúdo à própria plataforma.

Procurado, o Cruzeiro afirmou que “reprova e repudia quaisquer atitudes que exponham estudantes” e informou que registrou boletim de ocorrência, alertou os responsáveis e está dando suporte às vítimas e famílias. Em nota, a escola — que soma 164 anos de história — disse que sua função é “ensinar a adoção de posturas éticas, responsáveis e salvaguardar nossos alunos”.

NÃO É CASO ISOLADO

O episódio no Rio de Janeiro escancara um problema que vem se repetindo dentro de escolas brasileiras: o uso de tecnologia para sexualizar e humilhar colegas, quase sempre menores de idade, sob o disfarce de “brincadeira” entre adolescentes.

Em 2024, um caso quase idêntico veio à tona em Pelotas, no Rio Grande do Sul: oito estudantes de um instituto federal foram indiciados pela Polícia Civil por criar e espalhar, via aplicativos de mensagens, um “ranking sexual” com fotos de 29 colegas — a maioria meninas de 15 a 17 anos —, também classificadas com termos sexualmente explícitos (leia a reportagem do Jornal de Brasília). Os autores, todos adolescentes, responderam por ato infracional análogo ao crime de cyberbullying.

O QUE DIZ A LEI

Casos como o do Cruzeiro e o de Pelotas esbarram em pelo menos duas frentes da legislação brasileira. A Lei 14.811/2024, sancionada em janeiro daquele ano, tipificou o cyberbullying e a violência psicológica no ambiente escolar, prevendo pena de dois a quatro anos de prisão para maiores de 18 anos que praticarem o crime — e medidas socioeducativas para autores adolescentes.

Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante proteção integral e prioridade absoluta a menores de idade, criminalizando condutas ligadas à exposição e à violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo cartilhas de órgãos como a Polícia Civil de São Paulo e a Fundação Abrinq pelos Direitos das Crianças.

Especialistas em direito digital e psicologia escolar apontam que esse tipo de “ranqueamento” sexual não é brincadeira inofensiva: gera ansiedade, vergonha, isolamento social e, em casos extremos, quadros de depressão em adolescentes expostas sem consentimento — impacto que costuma persistir muito depois de a lista sair do ar.

O QUE ACONTECE AGORA

Enquanto a Dcav apura quem criou e compartilhou a lista, a expectativa é que os responsáveis — sejam eles alunos maiores ou menores de idade — sejam identificados e responsabilizados, seguindo o mesmo caminho do caso gaúcho. Cabe à polícia agora rastrear os perfis por trás da plataforma e apurar se houve reincidência ou outras vítimas ainda não identificadas.

O caso reacende o debate sobre o papel das escolas e das famílias na fiscalização do comportamento digital de adolescentes — e sobre a urgência de aplicar, na prática, leis que já existem no papel para proteger meninas e meninos da exposição sexual não consentida dentro e fora da sala de aula.

Leia a íntegra da nota do Colégio Cruzeiro

“O Colégio Cruzeiro, sintonizado com as questões da sociedade contemporânea, reprova e repudia quaisquer atitudes que exponham estudantes. Registramos um boletim de ocorrência, fizemos uma denúncia à plataforma de veiculação exigindo a retirada do conteúdo (já retirado do ar), alertamos os responsáveis e estamos dando apoio às alunas e suas famílias. Entendemos que nossa função como escola é ensinar a adoção de posturas éticas, responsáveis e salvaguardar nossos alunos. O Colégio Cruzeiro é uma instituição com 164 anos de existência focada no desenvolvimento integral do ser humano e, ao longo de sua história, já formou muitas gerações e milhares de alunos.”