Fundos de private equity sediados nos Estados Unidos estão na vanguarda de uma recuperação robusta no mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A), injetando bilhões de dólares em ativos de destaque em setores como agronegócio, mineração de minerais críticos e infraestrutura. No acumulado do ano até o início de julho, investidores estrangeiros responderam por US$ 15,91 bilhões em transações, o equivalente a 56,5% do volume total de M&A no Brasil, que atingiu US$ 28,16 bilhões, segundo dados da Dealogic compilados pelo Valor.
O capital americano se destacou entre os compradores externos, com US$ 3,76 bilhões em negócios — mais que o dobro do volume registrado em todo o ano de 2025. Esse montante posiciona os EUA novamente como a principal fonte de capital estrangeiro para aquisições no país, superando a China. O movimento ocorre apesar de tensões geopolíticas e comerciais entre Brasília e Washington, sinalizando o apelo duradouro dos ativos brasileiros para fundos globais com liquidez abundante.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o investimento de até US$ 1 bilhão da Warburg Pincus, tradicional gestora americana de private equity, na Global Eggs, holding controlada pelo empresário brasileiro Ricardo Faria, conhecido como o “Rei do Ovo”. A transação, anunciada em março, valoriza a empresa em cerca de US$ 8 bilhões e marca a entrada da Warburg no capital da multinacional, que opera granjas no Brasil, Estados Unidos e Europa, produzindo mais de 15 bilhões de ovos por ano. O aporte, realizado via Warburg Pincus Capital Solutions Founders Fund, visa financiar expansão geográfica, aquisições e ganhos de eficiência em um setor de proteína animal resiliente e em consolidação global. Allison Ross, principal da firma, ingressará no conselho da companhia.
A Global Eggs já havia expandido agressivamente nos EUA com a compra da Hillandale Farms por US$ 1,1 bilhão no ano anterior. O novo capital americano reforça a tese de que fundos de private equity veem oportunidades em players brasileiros com escala internacional e potencial de consolidação em categorias essenciais como ovos, que representam uma fonte barata e versátil de proteína.
Outro destaque foi a venda da Serra Verde, dona da única mina de terras raras em escala comercial fora da Ásia, localizada em Minaçu (Goiás), para a americana USA Rare Earth. O negócio, avaliado em torno de US$ 2,8 bilhões, ilustra o interesse crescente por minerais críticos essenciais para tecnologias de energia limpa, eletrônicos e defesa — área em que o Brasil desponta como alternativa estratégica à dependência da China.
Rebote cross-border e apetite por “ativos trophy”
De acordo com dados da Dealogic, as transações com compradores estrangeiros já se aproximam do total registrado em todo o ano de 2025 (cerca de US$ 18 bilhões), quando representavam apenas 35% do volume total de US$ 53,2 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, o valor transacionado no Brasil somou US$ 15,9 bilhões, alta de 30% ante o mesmo período do ano anterior, apesar de uma redução no número de deals.
Banqueiros e analistas atribuem o rebound à disponibilidade de “ativos trophy” — empresas ou projetos de destaque em setores estratégicos que antes não estavam à venda — e ao interesse global por diversificação em mercados com fundamentos sólidos. “Os deals cross-border voltaram a patamares históricos, reforçando o papel do Brasil como destino para capital internacional”, afirmou Anderson Brito, do UBS BB. Diogo Aragão, do Bank of America, destacou as vantagens competitivas brasileiras em recursos naturais, infraestrutura e tecnologia, impulsionadas pelo tamanho do mercado doméstico e pela penetração ainda baixa de serviços em algumas áreas.
Pedro Muzzi, do Goldman Sachs, e Andres Sommer, da Morgan Stanley, observaram que conversas sobre transações cross-border dominam o pipeline, com grandes investidores globais atraídos por ativos de qualidade em um ambiente de megadeals mundiais. Fabio Medeiros, também da Morgan Stanley, ressaltou que o Brasil oferece “o melhor e o pior dos dois mundos”: profundidade doméstica combinada com volatilidade cambial e custo de capital elevado, mas com oportunidades claras em consolidação setorial.
Setores como energia, mineração (especialmente minerais críticos), agronegócio e infraestrutura concentram boa parte da atividade. O private equity local também se mostrou dinâmico em 2025, mais que dobrando seu volume, mas os fundos americanos têm liderado os tickets maiores e as transações mais sofisticadas em 2026.
Contexto macro e perspectivas
O fluxo de capital estrangeiro persiste mesmo em meio a atritos comerciais — como as tarifas americanas sobre produtos brasileiros — e incertezas eleitorais no Brasil. Analistas veem o interesse sustentado por valuations atrativos em ativos de qualidade, liquidez global de fundos de private equity e a busca por diversificação geográfica por parte de investidores americanos.
Dimas Megna, do J.P. Morgan, apontou que o ambiente global de grandes transações favorece fluxos diversificados para o Brasil, especialmente em setores com vantagens estruturais. A expectativa é de continuidade do movimento no segundo semestre, com foco em consolidações e reestruturações, embora o ritmo possa depender da evolução das taxas de juros domésticas e da estabilidade macroeconômica. Enquanto isso, empresas brasileiras se beneficiam de injeção de capital, expertise gerencial e acesso a mercados globais.
Para os fundos americanos, o Brasil representa uma combinação atrativa de escala, crescimento em setores essenciais e oportunidades de value creation em um mercado ainda fragmentado em várias indústrias. O movimento reforça a integração do país aos fluxos globais de private equity, mesmo em um cenário de tensões geopolíticas.
