Ricardo Ferraço: o ascenso-relâmpago que pode coroar ou devorar o legado capixaba

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By LatAm Reports Staff Writers

Em abril de 2026, o Espírito Santo assistiu a uma das viradas mais dramáticas de sua recente história política. Renato Casagrande renunciou ao cargo para disputar o Senado e, de um dia para o outro, Ricardo Ferraço deixou a condição de vice para ocupar o Palácio Anchieta. Poucos meses depois, o ex-senador recordista de votos e experiente gestor aparece nas pesquisas como favorito ou em empate técnico com Lorenzo Pazolini, o ex-prefeito de Vitória que se apresenta como o grande nome da renovação oposicionista.

É um feito notável — e, ao mesmo tempo, uma prova de fogo que mistura oportunidade histórica com riscos perigosos.Ferraço não chegou ao poder por acaso. Aos 62 anos, carrega mais de quatro décadas de vida pública: vereador jovem em Cachoeiro de Itapemirim, presidente da Assembleia Legislativa, deputado federal, senador com mais de 1,5 milhão de votos — a maior votação da história do Estado até hoje — e duas passagens como vice-governador.

Quando assumiu em abril, herdou um governo com números robustos: investimentos recordes, equilíbrio fiscal elogiado, queda consistente na criminalidade (março de 2026 registrou o menor número de homicídios em três décadas) e uma agenda municipalista que fortaleceu prefeituras por meio de programas como o Fundo Cidades. Sua posse foi marcada por um discurso de continuidade responsável, prometendo acelerar entregas em segurança, saúde e educação sem romper com o que funcionou.

Os primeiros meses no cargo já renderam dividendos eleitorais. Pesquisas recentes mostram Ferraço com aprovação em torno de 77% em alguns levantamentos e intenções de voto entre 36% e 39% no primeiro turno, à frente ou colado em Pazolini. Ele tem viajado pelos municípios entregando obras, pavimentação de estradas rurais, investimentos em saúde e reforçando a imagem de gestor prático que “faz acontecer”.

O apoio explícito de Casagrande e da base aliada dá lastro institucional. Em um Estado que valoriza estabilidade e resultados concretos, a narrativa de “continuidade do maior governo da história recente” soa convincente para boa parte do eleitorado.Mas o cinismo da política capixaba não perdoa. O tempo de Ferraço no comando é curto — pouco mais de três meses até o auge da campanha. Isso cria uma vulnerabilidade clássica: a percepção de que ele é mais “herdeiro” do que protagonista.

Pazolini, com sua gestão bem avaliada em Vitória e discurso de renovação, já aparece forte em vários cenários e pode se beneficiar de uma aliança ampliada com o PL de Magno Malta. O ex-prefeito da capital representa o rosto da mudança; Ferraço, por mais experiente que seja, carrega o peso de um projeto que já está no poder há sete anos. Qualquer deslize administrativo, atraso em obras visíveis ou crise fiscal — mesmo que herdada — será amplificado pela oposição e pela mídia.Há outros riscos não menos perigosos.

A necessidade de construir uma identidade própria sem romper com o legado de Casagrande é um malabarismo delicado. Se Ferraço parecer “mais do mesmo”, corre o risco de desmobilizar a base; se tentar se diferenciar demais, pode gerar ruído interno. A polarização nacional, com Lula e Flávio Bolsonaro no centro do debate, também pode contaminar a disputa estadual, forçando escolhas difíceis de palanque.

Além disso, o calendário é cruel: convenções em julho e agosto, registro de candidaturas em agosto e uma campanha curta que exige rapidez na comunicação e na entrega de resultados tangíveis. Um erro de cálculo nas alianças ou uma onda de rejeição a nomes associados ao grupo governista pode virar o jogo no segundo turno.Ferraço tem armas poderosas: experiência em Brasília, trânsito com prefeitos, conhecimento da máquina pública e um time técnico que já demonstrou eficiência.

Se conseguir transformar a “continuidade” em um projeto próprio — com entregas aceleradas, comunicação direta com a população e uma campanha que misture orgulho do que foi feito com visão de futuro —, a vitória parece ao alcance. Mas o caminho está cheio de armadilhas. O eleitor capixaba é pragmático: aprova quem entrega, mas pune quem parece acomodado ou refém de heranças políticas.

O ascenso-relâmpago de Ricardo Ferraço é, até aqui, uma história de sucesso improvável. Resta saber se ele conseguirá transformar essa janela de oportunidade em um mandato consolidado ou se as mesmas forças que o elevaram tão rápido vão cobrar sua conta na hora do voto.

No Espírito Santo de 2026, não basta ser o herdeiro do sucesso. É preciso provar que também é o dono do futuro.