Uso de anabolizantes vira espetáculo nas redes e preocupa especialistas

Aplicações de hormônios diante das câmeras, desafios sobre ciclos de esteroides e transformações físicas exibidas para milhões de seguidores. O que antes costumava permanecer nos bastidores do universo fitness agora ocupa o centro das atenções nas redes sociais. A exposição crescente do uso de anabolizantes tem despertado preocupação entre médicos e especialistas, que alertam para os riscos à saúde e para a normalização de um comportamento potencialmente perigoso.

O debate ganhou ainda mais força após a morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos. O caso segue sob investigação da Polícia Civil de São Paulo. Um laudo preliminar apontou morte súbita relacionada a um problema cardíaco, enquanto os exames complementares ainda aguardam conclusão.

A transformação dos hormônios em entretenimento digital

Antes de aderir aos hormônios, Gabriel ficou conhecido nas redes como “Bebezinho Natural”, apelido que fazia referência ao fato de treinar sem utilizar substâncias para ganho muscular. Com o crescimento da audiência, porém, o influenciador decidiu compartilhar publicamente sua mudança de estratégia e passou a documentar o uso de anabolizantes diante dos seguidores.

A decisão foi tratada quase como um evento por parte do público. Vídeos mostravam aplicações, discussões sobre produtos utilizados e conversas sobre os resultados obtidos. Em algumas ocasiões, as aplicações foram exibidas em tom descontraído, cercadas por brincadeiras e comentários que reforçavam o caráter de entretenimento do conteúdo.

O fenômeno não se limita a um único criador de conteúdo. Nas redes, surgiram formatos específicos em que o uso de hormônios se tornou tema central. Expressões como “tomar suco”, “ciclo” e “hormonizado” passaram a integrar o vocabulário comum de milhares de jovens que acompanham influenciadores fitness diariamente.

Segundo especialistas, essa linguagem informal pode reduzir a percepção dos riscos envolvidos. O médico Luis Fernando Correia afirmou que não existem evidências científicas que garantam o uso seguro dessas substâncias e alertou para os efeitos da normalização do comportamento entre jovens seguidores.

Mesmo após a repercussão da morte de Gabriel, diversos atletas e influenciadores ouvidos pela reportagem afirmaram que não pretendem abandonar o uso de hormônios. Muitos defendem que seria possível minimizar os riscos por meio de acompanhamento e protocolos específicos.

No entanto, profissionais da saúde destacam que os anabolizantes podem provocar alterações cardiovasculares importantes, incluindo aumento do músculo cardíaco, mudanças na circulação sanguínea e maior risco de complicações graves.

Além dos impactos físicos, o caso reacendeu a discussão sobre a pressão por resultados extremos nas redes sociais. Para muitos criadores de conteúdo, corpos cada vez mais musculosos costumam gerar mais visualizações, engajamento e oportunidades comerciais. Esse ambiente pode incentivar decisões motivadas pela busca por audiência, mesmo diante dos riscos envolvidos.

A combinação entre influência digital, padrões estéticos cada vez mais exigentes e monetização da exposição pessoal tem transformado um tema de saúde em produto de entretenimento. Especialistas alertam que o debate precisa avançar para além das redes e considerar os efeitos que esse tipo de conteúdo pode ter sobre jovens que acompanham essas transformações diariamente.