Diretor da PF retira credenciais de agente americano no Brasil após crise envolvendo prisão de Ramagem

O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, confirmou nesta quarta-feira (22) que retirou as credenciais de trabalho de um agente de imigração dos Estados Unidos que atuava na sede da PF em Brasília. A decisão foi uma resposta direta à ação do governo Trump contra o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, envolvido na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando.

“Eu retirei, com pesar, as credenciais de um servidor dos EUA pelo princípio da reciprocidade”, disse Rodrigues em entrevista exclusiva ao Estúdio i, da GloboNews. Sem as credenciais, o policial americano perde o acesso à unidade onde trabalhava e às bases de dados usadas na cooperação entre as polícias dos dois países. Contudo, o diretor fez questão de esclarecer que não se trata de expulsão. “Não vamos expulsar ninguém. Não é nosso papel”, afirmou.

O estopim da crise

A tensão começou na segunda-feira (20), quando os Estados Unidos determinaram que o delegado Marcelo Ivo deixasse o país. Sem citar nomes, o governo americano acusou uma autoridade brasileira de tentar “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas”. Rodrigues negou a versão. Segundo ele, o delegado voltou ao Brasil por determinação própria, para que a PF possa esclarecer se existe algum processo formal contra ele.

Rodrigues classificou Marcelo Ivo como um “exemplar servidor”. Ao longo da missão em Miami, o delegado localizou 49 foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos e auxiliou em 56 deportações. O diretor da PF reforçou que a participação do delegado na prisão de Ramagem seguiu os acordos de cooperação internacional vigentes. “São mais de uma dezena de acordos que permitem a atuação dos nossos policiais no exterior”, disse.

Na terça-feira (21), o presidente Lula comentou o caso durante viagem à Europa. “Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil”, declarou. No mesmo dia, a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos EUA em Brasília, Kimberly Kelly, foi convocada pelo Itamaraty para dar explicações. A reunião durou cerca de uma hora.

O caso Ramagem nos EUA

O ex-deputado foi preso pelo ICE em Orlando no dia 13 de abril por questões migratórias. Condenado a 16 anos de prisão pelo STF por participação na tentativa de golpe de Estado, Ramagem havia deixado o Brasil de forma clandestina em setembro de 2025, pela fronteira com a Guiana. Todavia, dois dias após a prisão, foi solto.

Em vídeo publicado nas redes sociais, Ramagem afirmou que entrou nos Estados Unidos de forma regular e que havia solicitado asilo político. O ICE comunicou à PF que ele poderá aguardar em liberdade a conclusão do processo de asilo. A informação foi repassada em uma reunião que já estava agendada antes da soltura — cujo objetivo era justamente evitar a liberação, o que acabou acontecendo antes do encontro.

O delegado Marcelo Ivo atuava em Miami desde março de 2023, em missão junto ao ICE com duração inicial de dois anos. A permanência foi prorrogada em março de 2025. Em março de 2026, a PF já havia nomeado uma substituta para o posto. Por essa razão, a saída de Marcelo Ivo já estava prevista na dinâmica regular de missões no exterior — o que torna a versão americana de “expulsão” ainda mais controversa aos olhos do governo brasileiro.