A Polícia Federal desvendou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que liga o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções criminosas do Brasil, à máfia italiana ‘Ndrangheta. O grupo operava entre Brasil e Europa, movimentando bilhões de reais por meio de empresas de fachada e operações clandestinas de câmbio, conhecidas como “dólar cabo”.
O principal elo entre as organizações, segundo a PF, é Thareck Mourad, preso na última sexta-feira (28) em São Paulo. Ele utilizava escritórios no Brasil e na Itália para gerenciar a circulação de dinheiro vivo proveniente do tráfico internacional de drogas. Mourad aparece em fotos ao lado de William Barile Agati, apontado como um operador de confiança do PCC, preso em janeiro.
Ambos são acusados de tráfico, associação para o tráfico e participação em organização criminosa.
A operação teve colaboração com autoridades italianas, que compartilharam mensagens interceptadas entre os membros da quadrilha. Os criminosos utilizavam um aplicativo criptografado e sem identificação por nome real, trocando informações sob apelidos. Em uma das conversas, discutiam dificuldades para decolar um avião carregado com uma tonelada de cocaína, escondida em compartimentos adaptados no piso e nos bancos. O destino era a Bélgica.
As drogas vinham da Colômbia, Bolívia e Peru, entrando no Brasil por estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. Daqui, seguiam para a Europa por rotas marítimas — via portos de Santos e Paranaguá — e aéreas. Outro investigado, Marlon dos Santos, suspeito de atuar na logística portuária para o PCC, também foi preso e teria participado de reuniões com representantes da máfia italiana.
A quebra de sigilos bancários e fiscais expôs uma rede de empresas fictícias usadas para lavar dinheiro em larga escala. Segundo a PF, Agati aparece como sócio de pelo menos oito empresas em diferentes setores. Uma delas movimentou R$ 3,5 milhões para a construção de um prédio em Santo André (SP), que, na verdade, já havia sido erguido nove anos antes.
Para o Ministério Público Federal, a associação entre o PCC e a ‘Ndrangheta demonstra uma nova fase do crime organizado transnacional. A procuradora Hayssa Kyrie Medeiros Jardim afirma que a mistura de recursos lícitos com dinheiro do tráfico dificulta o rastreamento financeiro e impede que os envolvidos sejam rapidamente identificados como criminosos.
A defesa de Thareck Mourad informou que ele já havia sido solto por habeas corpus e que a nova prisão é arbitrária. Já os advogados de Agati alegam inocência e dizem confiar na absolvição ao fim do processo.