Gigantes da fé impulsionam turismo religioso e redesenham economia local no Ceará

Conhecido nacionalmente pelas praias, o Ceará passou a atrair visitantes também por outra via. Ao longo dos últimos anos, megaestátuas de santos e beatos vêm transformando cidades do interior e do litoral em polos de turismo religioso. Atualmente, o estado abriga sete monumentos desse tipo, dois deles maiores que o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.

Esse movimento ganhou força com a criação da Rota do Turismo Religioso do Ceará, instituída por lei estadual em 2022. A iniciativa conecta 19 municípios e busca organizar peregrinações, valorizar festas tradicionais e estimular o desenvolvimento regional. Embora a legislação tenha caráter simbólico, segundo a Secretaria do Turismo, os investimentos em infraestrutura seguem programas públicos já existentes.

Dados reunidos a partir de reportagens publicadas desde 2020 indicam que ao menos R$ 30 milhões foram aplicados nos projetos, considerando obras, acessos e urbanização. Não há, contudo, um levantamento oficial consolidado apenas sobre o custo das estátuas. Ainda assim, o impacto econômico já é visível em várias regiões.

A fé como vetor de atração turística

O Ceará é hoje o segundo estado brasileiro com maior proporção de população católica. Segundo o IBGE, mais de 70% dos moradores se declaram adeptos da religião. Esse fator ajuda a explicar o alcance das obras monumentais, que funcionam como pontos de devoção e, ao mesmo tempo, como marcos turísticos.

Para o professor Christian Dennys, da Universidade Federal do Ceará, as estátuas representam uma estratégia simbólica do catolicismo em um contexto de avanço de outras denominações religiosas. De acordo com ele, os monumentos funcionam como afirmação cultural e territorial da fé católica no espaço público.

Juazeiro do Norte, no Cariri, é considerado o ponto de partida desse modelo. A estátua de Padre Cícero, inaugurada em 1969, consolidou a cidade como um dos maiores destinos de romaria do país. Estimativas do Ministério do Turismo apontam que cerca de 2,5 milhões de visitantes passam pelo município todos os anos, movimentando a economia local.

Cariri e interior concentram principais projetos

A região do Cariri se tornou estratégica para o turismo religioso por sua localização. Faz divisa com Paraíba e Pernambuco e integra rotas tradicionais de peregrinação. Além de Juazeiro do Norte, cidades como Crato, Barbalha e Santana do Cariri apostaram em novos monumentos para ampliar o fluxo de visitantes.

No Crato, a estátua de Nossa Senhora de Fátima, com 54 metros de altura, supera o Cristo Redentor e já é considerada a maior do mundo dedicada à santa. O entorno do santuário foi estruturado para receber romeiros e pequenos empreendedores. Segundo a prefeitura, o impacto econômico começou a ser sentido ainda antes da inauguração.

Canindé segue outro exemplo relevante. A cidade recebe mais de 1,5 milhão de visitantes por ano, atraídos pela devoção a São Francisco das Chagas. A estátua de 31 metros reforçou o papel do município como um dos principais centros de romaria do Nordeste, ampliando o comércio e os serviços ligados ao turismo.

Litoral também entra na rota da fé

Embora o interior concentre a maioria dos monumentos, o litoral não ficou de fora. Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, abriga o santuário de Santa Edwiges. O local recebe cerca de 15 mil visitantes por mês e passou a integrar oficialmente o calendário turístico do estado após o reconhecimento da romaria anual.

De acordo com a administração do santuário, o público vem de diferentes regiões do Brasil e também do exterior. Esse fluxo reforça a ideia de que o turismo religioso não concorre diretamente com o turismo de praia, mas amplia o leque de experiências oferecidas pelo estado.

Com novas estátuas previstas para inauguração em 2026, como as dedicadas a Santo Antônio, em Caridade, e à beata Menina Benigna, em Santana do Cariri, o Ceará consolida uma estratégia que une fé, identidade cultural e economia local. Assim, o turismo religioso passa a ocupar um espaço permanente na agenda de desenvolvimento do estado.