Bananas reclamando de ir para o lixo, pães revoltados com a geladeira e cebolas dando bronca em quem as corta errado. Vídeos em que alimentos e objetos “ganham voz” por meio de inteligência artificial estão se espalhando rapidamente pelas redes sociais, especialmente no TikTok e no Instagram, misturando humor, dicas domésticas e personagens falantes que chamam a atenção do público.
Em algumas gravações que viralizaram nas últimas semanas, uma casca de banana pede para ser reaproveitada como adubo, enquanto um pão de forma afirma que a geladeira o deixa “duro e sem graça”. Em outros casos, geladeiras, esponjas de louça e até pastas de dente surgem com expressões irritadas, dando conselhos sobre uso e conservação.
Criados com ferramentas de IA generativa, esses vídeos costumam apresentar animações realistas e falas sincronizadas, muitas vezes sem qualquer indicação da origem das informações compartilhadas. Ainda assim, o formato tem conquistado milhões de visualizações e impulsionado perfis dedicados exclusivamente a esse tipo de conteúdo.
O g1 identificou que parte dessas produções utiliza o Veo 3, ferramenta de inteligência artificial do Google capaz de gerar vídeos ultrarrealistas. A tecnologia já havia sido usada em outras trends ao longo de 2025, incluindo personagens fictícios que confundiram parte do público pela aparência próxima à de pessoas reais.
Humor, engajamento e risco de desinformação
Apesar do tom leve, especialistas alertam que nem todas as dicas apresentadas nesses vídeos são confiáveis. Para analisar o fenômeno, o g1 ouviu Angelica Mari, especialista em cyberpsicologia, área que estuda os impactos da tecnologia no comportamento humano.
Segundo ela, ao humanizar objetos como geladeiras ou alimentos, o conteúdo cria uma falsa autoridade. A ideia implícita é que, por “falar”, o objeto teria conhecimento técnico sobre conservação ou uso adequado, o que nem sempre é verdade.
Mari destaca que algumas orientações vistas nesses vídeos são discutíveis, especialmente quando tratam de armazenamento e higiene de alimentos. Por isso, ela recomenda que o público encare o conteúdo como entretenimento e busque confirmar informações em fontes confiáveis.
Ao mesmo tempo, a especialista reconhece o poder de engajamento do formato. A linguagem simples, muitas vezes infantilizada ou narrativizada, facilita a assimilação da mensagem e cria proximidade emocional com quem assiste. Em comparação com campanhas institucionais tradicionais, esse tipo de comunicação tende a gerar mais atenção e compartilhamentos.
O sucesso dos vídeos também deu origem a uma nova tendência: usuários passaram a seguir, de forma bem-humorada, os “conselhos” dos alimentos falantes, reproduzindo situações do cotidiano inspiradas nas falas criadas pela IA.
Entre diversão e informação, a trend escancara um desafio cada vez mais presente nas redes: diferenciar conteúdo criativo de orientações confiáveis, em um ambiente onde personagens artificiais falam com naturalidade e viralizam em poucos minutos.
