Vila soterrada por dunas no Ceará tinha igreja, escola e festejos

Debaixo das areias de Tatajuba, no litoral de Camocim (CE), existe uma vila inteira. Igreja, posto de saúde, escola, casas de pescadores — tudo foi engolido pelas dunas a partir da década de 1970. Mais de 40 anos depois, o local virou destino turístico. Contudo, poucos visitantes sabem o que está enterrado sob seus pés.

Um dos guardiões dessa memória é o pescador João Batista dos Santos, conhecido como Tita. A mãe dele morava na vila e precisou sair ainda grávida. “Já era uma vila muito grande. Tinha igreja, posto policial, colégio. Os festejos eram os maiores dessa região. Se não tivesse sido soterrada, hoje era quase uma cidade”, conta.

Por que a vila foi engolida pela areia

O professor Jeovah Meireles, do Departamento de Geografia da UFC, explica que a comunidade foi construída diretamente na rota natural de migração das dunas. Por essa razão, a areia trazida pelos ventos passava pelas ruas e corredores entre as casas. Com o tempo, o acúmulo se tornou gigantesco.

Segundo o especialista, as dunas maiores da região migram até 15 metros por ano. As menores podem avançar até 30 metros. Além disso, no segundo semestre, os ventos ficam mais fortes e transportam grandes volumes de areia da praia para o interior. A vila funcionou como uma barreira física nesse trajeto. Dessa forma, foi soterrada aos poucos.

O pescador João Batista de Paula, de 78 anos, conhecido como João “Errado”, acompanhou o processo. “A duna foi cobrindo tudo. Não deu para salvar nada”, relata. Em 1978, as últimas famílias deixaram o local. Os moradores se reorganizaram em comunidades vizinhas. Hoje, o distrito de Tatajuba reúne quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco.

Angelaine Alves, presidenta da Associação de Moradores, lembra que houve um período em que vestígios da antiga igreja vieram à tona. “Lá tinha igreja, casas, comércios. Com a chegada das dunas, ficou tudo debaixo das areias”, afirma.

Turismo, especulação e resistência

Tatajuba faz parte da Rota das Emoções, famoso roteiro turístico que inclui Jericoacoara e o Delta do Parnaíba. Camocim recebeu mais de 892 mil turistas em 2025. Todavia, moradores temem os efeitos negativos do crescimento desordenado sobre o meio ambiente, a pesca artesanal e a agricultura.

Em 2001, a comunidade descobriu que o terreno das quatro vilas havia sido comprado por uma grande empresa de turismo. O projeto previa cinco campos de golfe e um “condado ecológico”. Outrossim, significava a remoção dos moradores. A Associação entrou com processos na Justiça para barrar a construção. O imbróglio durou mais de 20 anos.

A regularização das terras só avançou em setembro de 2023. O Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará e a Defensoria Pública da União fecharam acordo para que a maior parte fosse doada ao estado. Com isso, o perímetro onde as comunidades vivem ficou sob tutela pública.

Mesmo assim, a pressão continua. Em fevereiro de 2024, uma operação conjunta do Ibama, Idace e Polícia Militar Ambiental derrubou cercas e placas de venda de terrenos públicos na área. Segundo estudos do professor Jeovah Meireles, o crescente interesse de empresários cercando terrenos de forma irregular acende alerta para novos conflitos.

A professora de história Sheila Abreu reforça a necessidade de respeitar a natureza da região. “A gente não consegue parar a natureza. O que pedimos é que compreendam o modelo que temos, para que as ocupações sejam sustentáveis”, afirma. Em abril deste ano, a Área de Proteção Ambiental foi redefinida pela lei municipal 1728/2026. A nova legislação obriga a proteção de dunas, restingas e manguezais — e exige licenciamento ambiental para qualquer empreendimento no distrito.