Áudios e mensagens extraídos de celulares apreendidos por investigadores revelaram um esquema de corrupção dentro da Polícia Civil de São Paulo que envolvia a cobrança de propinas milionárias para interromper investigações criminais. Em alguns casos, segundo as apurações, os valores exigidos chegaram a R$ 33 milhões.
As conversas fazem parte das provas reunidas na Operação Bazzar, deflagrada nesta quinta-feira por uma força-tarefa formada pelo Ministério Público de São Paulo, Polícia Federal e Corregedoria da Polícia Civil. Até o momento, nove pessoas foram presas sob suspeita de integrar o esquema.
Entre os detidos estão um delegado, investigadores, um escrivão, uma doleira e outros operadores financeiros e jurídicos que, segundo as autoridades, participavam da estrutura responsável por negociar o arquivamento ou o travamento de inquéritos.
Propinas milionárias e investigações travadas
De acordo com os investigadores, os diálogos mostram a negociação direta de valores para impedir o avanço de apurações relacionadas a crimes como corrupção e lavagem de dinheiro. Em um dos áudios interceptados, um dos investigados menciona uma transferência de R$ 33 milhões e afirma ter influência dentro de uma delegacia.
Outras mensagens indicam que um delegado já teria recebido mais de R$ 20 milhões em propinas. Em diversos casos, os pagamentos eram feitos de forma fracionada para dificultar o rastreamento.
Entre os valores mencionados nas conversas aparecem repasses de R$ 10 mil, R$ 40 mil, R$ 100 mil e até R$ 700 mil. Em outro diálogo interceptado, um dos investigados relata ter pago R$ 220 mil a agentes ligados ao Departamento de Investigações Criminais (Deic).
As negociações também incluíam cobranças de R$ 5 milhões para encerrar determinados inquéritos. Em mensagens encontradas nos celulares apreendidos, investigados discutem a necessidade de levantar o valor exigido para impedir o andamento de apurações.
Segundo a investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o esquema envolvia policiais do Departamento de Investigações Criminais (Deic) e do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
Delegacias usadas para negociar impunidade
De acordo com as autoridades, alguns encontros para negociação de propinas ocorreriam dentro de estruturas da própria polícia, como o hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, no Campo de Marte, e também em delegacias da capital paulista.
Entre elas estão o 16º Distrito Policial, na Vila Clementino, e o 35º Distrito Policial, no Jabaquara. Segundo a investigação, alguns policiais que atuavam em uma dessas unidades foram posteriormente transferidos para outra, onde o esquema teria continuado.
Para os investigadores, o grupo teria transformado estruturas policiais em pontos de negociação para garantir a impunidade de investigados.
O esquema também contaria com a participação de doleiros e operadores financeiros responsáveis por movimentar os valores ilícitos e ocultar a origem do dinheiro.
As investigações apontam que a organização criminosa utilizava métodos sofisticados para lavar o dinheiro obtido com propinas.
Entre os mecanismos identificados está a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vale-refeição, realizada por meio de estabelecimentos comerciais fictícios. Também foram identificadas empresas de fachada e simulações de operações de importação para ocultar recursos.
Além disso, há indícios de destruição de provas. Segundo a investigação, HDs apreendidos em operações policiais teriam sido substituídos por dispositivos vazios para eliminar evidências.
A Justiça autorizou 11 mandados de prisão preventiva, 23 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens dos investigados.
Posicionamento da Segurança Pública
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa das investigações e afirmou que não tolera desvios de conduta de seus integrantes.
Segundo a pasta, medidas administrativas e disciplinares serão adotadas caso as irregularidades sejam confirmadas.
As autoridades também informaram que tentam contato com as defesas dos investigados para obter posicionamento sobre as acusações.
A investigação segue em andamento e novas diligências não estão descartadas.
