‘Garotas do job’: promessas vazias, conteúdo adulto com IA e riscos legais no novo mercado digital

Vídeos curtos no TikTok e frases de impacto no Instagram prometem lucros fáceis. A nova onda é criar mulheres virtuais para vender conteúdo adulto usando inteligência artificial. Tudo isso sem mostrar o rosto, sem esforço e, segundo os anúncios, “enquanto você dorme”.

Os cursos ensinam como montar essas “garotas do job” – nome que virou gíria para avatares femininos voltados à sedução de homens mais velhos. A prática virou febre digital. Mas por trás das promessas está um universo de ilegalidades, frustrações e exploração da ingenuidade.

Para esta matéria tivemos acesso a 3 cursos. Todos custaram menos de R$ 50. Em comum, vídeos curtos, conteúdo genérico e técnicas que sugerem, sem disfarce, a manipulação de vídeos reais de mulheres. A recomendação? Usar deepfake para substituir o rosto das modelos por rostos gerados por IA. Sem pedir autorização.

Em um dos cursos, o próprio criador orienta: “Use uma mulher de fora do Brasil. Se for brasileira, o problema vem mais rápido”. A frase escancara o desprezo pelas consequências legais.

O advogado Vinicius Padrão alerta que usar imagens reais sem consentimento é crime. Pode gerar processos por danos morais, violação de imagem e exposição indevida.

As plataformas tentam reagir. A Cakto e a Hotmart removeram os cursos denunciados. A Kirvano, também citada, afirmou que não compactua com esse tipo de prática. O OnlyFans exige que o criador seja uma pessoa real. Já houve tentativas de driblar isso usando fotos falsas, mas a empresa garante ter filtros para impedir a fraude.

Quem compra os cursos, muitas vezes, sai com uma sensação de ter sido enganado. As aulas não ensinam o que prometem. Faltam orientações técnicas, e as dicas são mais filosóficas do que práticas. Em redes como o Reclame Aqui, há relatos de consumidores decepcionados com o material.

Elisabete Alves e Elaine Pasdiora, que atuam com IAs de forma legal, alertam que o retorno financeiro é lento. A promessa de ganhar R$ 500 por dia não condiz com a realidade. A maioria lucra mesmo vendendo cursos – e não com o conteúdo adulto em si.

O fenômeno das “garotas do job” revela algo maior: a combinação de tecnologia, sexualidade e exploração. Sem regras claras, muitos abusam da IA para ganhar dinheiro. E, no meio disso, imagens de mulheres reais são usadas como matéria-prima de um mercado perigoso.

Acompanhe o LatAm Reports para mais investigações exclusivas sobre tecnologia, comportamento e segurança digital.