Trump deve tentar influenciar eleições no Brasil após a Venezuela, diz professor dos EUA

A ofensiva que levou à captura de Nicolás Maduro pode não ser um episódio isolado na política externa de Donald Trump. Para o historiador americano Erick Langer, professor da Universidade de Georgetown, o presidente dos Estados Unidos tende a ampliar sua interferência na América Latina, e o Brasil surge como um dos próximos alvos desse movimento.

Em entrevista à BBC News Brasil, Langer avalia que a ação americana na Venezuela revela uma estratégia mais ampla de reposicionamento geopolítico, centrada no controle de recursos estratégicos, especialmente o petróleo. Segundo ele, a retirada de Maduro não foi acompanhada por um plano claro de reconstrução democrática, o que reforça a leitura de que Washington prioriza influência econômica e política, e não necessariamente mudanças institucionais profundas.

Venezuela como laboratório de poder

Na avaliação do professor, a operação americana não desmontou o núcleo do chavismo. Pelo contrário. Langer sugere que integrantes da cúpula do regime podem ter colaborado para a retirada de Maduro, preservando estruturas internas de poder e garantindo uma transição controlada. Isso explicaria, segundo ele, por que a oposição venezuelana não assumiu imediatamente o comando do país, apesar do discurso internacional em favor de uma ruptura.

Para Langer, Trump não busca um governo com forte respaldo popular em Caracas. Líderes legitimados pelo voto teriam maior margem de negociação e menos disposição para aceitar imposições externas. Um governo frágil, por outro lado, dependeria diretamente do apoio dos Estados Unidos — especialmente em um cenário de reabertura do setor petrolífero a empresas americanas.

O professor chega a afirmar que a Venezuela corre o risco de se tornar uma espécie de “colônia econômica”, caso a lógica atual se consolide. Nesse contexto, a soberania política ficaria em segundo plano diante da exploração dos recursos naturais.

Brasil entra no radar, e pode reagir

Ao projetar os próximos passos de Trump na região, Langer aponta o Brasil como peça central. Ele acredita que o presidente americano deve tentar influenciar o processo eleitoral brasileiro em 2026, seja por pressão diplomática, econômica ou simbólica. No entanto, o efeito pode ser o oposto do esperado.

Segundo o historiador, uma interferência explícita dos Estados Unidos tende a fortalecer discursos nacionalistas e pode acabar prejudicando setores da direita brasileira, que seriam associados a interesses externos. Para ele, o Brasil tem peso político, econômico e institucional suficiente para funcionar como um contrapeso às investidas de Washington, desde que mantenha coesão interna e estratégia diplomática clara.

“O Brasil é o único país da região grande o bastante para dizer ‘chega’”, afirma Langer, ao destacar que nenhuma outra nação latino-americana reúne condições semelhantes de influência regional.

Um jogo maior, com a China no pano de fundo

A análise também leva em conta o papel da China. Atualmente, Pequim é o principal parceiro comercial de vários países da América Latina e mantém investimentos relevantes na Venezuela. Para Langer, a crise venezuelana funciona como um teste de até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir para redefinir zonas de influência — e de como a China reagirá a esse movimento.

O professor avalia que a disputa por recursos, especialmente energia, tende a se intensificar, reposicionando alianças e aumentando a instabilidade política na região. Nesse cenário, eleições, governos e transições deixam de ser apenas temas domésticos e passam a integrar um tabuleiro global.

O desfecho, segundo ele, ainda é incerto. Mas uma coisa parece clara: a crise na Venezuela abriu um precedente que pode reverberar em toda a América Latina, com impactos diretos sobre o Brasil.