Regime reciclado sob tutela dos EUA envia sinais ambíguos na Venezuela

Seis dias após a operação militar dos Estados Unidos que retirou Nicolás Maduro do poder, o governo interino liderado por Delcy Rodríguez tem adotado uma estratégia marcada por contradições. Enquanto anuncia a libertação parcial de presos políticos, mantém intacto o aparato repressivo nas ruas e reforça medidas de controle social.

Na prática, gestos de abertura convivem com ações típicas do regime chavista. A promessa de distensão política ocorre paralelamente à repressão contra manifestações e até comemorações da intervenção americana, o que reforça a percepção de um poder ainda sustentado pela força.

Libertações limitadas e repressão contínua

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, afirmou que a libertação de presos seria um gesto unilateral para promover “paz e convivência”. No entanto, o discurso não se refletiu plenamente nos fatos. Durante a madrugada que se seguiu ao anúncio, familiares permaneceram horas sem informações oficiais.

Ao final, apenas cinco pessoas foram libertadas. Todas possuíam passaporte espanhol. Entre elas estavam o ex-candidato presidencial Enrique Márquez e a advogada de direitos humanos Rocío San Miguel, presa há quase dois anos sob acusações consideradas infundadas por organizações internacionais.

A condução do processo expôs fragilidades do novo arranjo de poder. Em meio à demora e à falta de transparência, analistas questionaram quem, de fato, controla as decisões no alto escalão venezuelano.

Segundo a ONG Foro Penal, o país ainda mantém cerca de 820 presos políticos. Parte deles está detida no complexo conhecido como El Helicoide, apontado por entidades de direitos humanos como centro de tortura administrado pelo Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional.

Ao mesmo tempo, patrulhas militares, milicianos e grupos paramilitares seguem nas ruas de Caracas e de outras cidades. Assim, apesar dos sinais pontuais de concessão, o sistema de coerção permanece ativo.

Discurso interno contrasta com imposições externas

Para o público interno, Delcy Rodríguez tenta sustentar a narrativa de resistência. Em cerimônia oficial, afirmou que o governo não se rendeu e classificou a captura de Maduro como um sequestro. O tom nacionalista busca preservar a base chavista e reforçar a ideia de continuidade institucional.

Contudo, essa retórica perde força diante das medidas impostas por Washington. O controle sobre o petróleo venezuelano, definido pelo governo de Donald Trump, limita a autonomia real do novo regime. Ainda assim, no cotidiano, a autoridade segue sendo exercida por meio da repressão direta.

Dessa forma, o chavismo reaparece reconfigurado. Troca-se o rosto no comando, mas preserva-se a engrenagem de controle. O resultado é um governo interino que acena para fora com concessões pontuais, enquanto mantém, dentro do país, os mecanismos clássicos de intimidação.