Popularidade em queda: economia vira desafio central para Lula a um ano e meio das eleições

A popularidade do presidente Lula (PT) vem desmoronando em ritmo acelerado. Segundo a nova pesquisa Genial/Quaest, a desaprovação do governo subiu para 56%, o maior índice desde o início do mandato. O cenário, marcado por inflação alta, queda no poder de compra e desgaste político, coloca o governo sob pressão num momento decisivo: faltam pouco mais de 18 meses para as eleições de 2026.

A avaliação negativa ganhou força entre o fim de 2024 e o primeiro trimestre deste ano. Uma sequência de fatores contribuiu para esse cenário, como a alta nos alimentos, o avanço do dólar, juros persistentemente elevados e a frustração com promessas não cumpridas.

Mesmo após trocar o comando da Secretaria de Comunicação, com a chegada do marqueteiro Sidônio Palmeira, o Planalto não conseguiu estancar a queda. Sidônio tentou reposicionar a imagem de Lula, apostando na comparação com o governo Bolsonaro e divulgando dados positivos do PIB, geração de empregos e aumento do salário mínimo. Mas até agora, os resultados não apareceram.

Enquanto isso, a inflação ultrapassou o teto da meta e fechou 2024 em 4,83%. O impacto foi sentido principalmente nos alimentos. O café subiu quase 40% no ano. A carne teve alta de mais de 20%. E o subgrupo “alimentação no domicílio” registrou aumento superior a 8%.

A situação é ainda mais crítica no Nordeste, onde Lula concentra parte expressiva de sua base eleitoral. Em estados como Bahia e Sergipe, os preços dispararam.

Com a pressão popular crescendo, o governo zerou o imposto de importação sobre produtos como carne, milho e café. A medida entrou em vigor em março, mas analistas apontam que o impacto sobre os preços internos será limitado. Isso porque o problema não é só tributário, mas envolve também fatores internacionais, como quebras de safra e alta dos preços globais.

Além disso, o dólar saltou 27% em 2024. A moeda norte-americana passou de R$ 5,67 para R$ 6,17 em menos de dois meses. A valorização da moeda está ligada à insegurança do mercado com o pacote de ajuste fiscal do governo e à proposta de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda, o que pode reduzir a arrecadação.

Para o mercado, a condução das contas públicas é um dos pontos mais preocupantes. A dívida bruta já ultrapassa os 75% do PIB. E sem um corte efetivo de gastos, cresce o temor de que o país se torne mais arriscado para investidores — o que pressiona ainda mais o câmbio, os juros e a inflação.

Segundo a mesma pesquisa Quaest, 88% dos agentes do mercado financeiro reprovam a gestão de Lula. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também amarga reprovação alta: 58%.

Especialistas apontam que, mesmo sem voto direto, o mercado influencia o clima geral da economia. Se os investidores perdem confiança, o impacto chega rápido no bolso da população. Juros sobem, crédito encarece e os preços continuam em alta.

Internamente, a pressão por respostas cresceu. O governo lançou uma linha de crédito consignado com FGTS como garantia, voltada a trabalhadores do setor privado. A promessa é reduzir os juros pela metade. Também foi aprovada a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil, com descontos para quem recebe até R$ 7 mil. São medidas populares, mas que enfrentam desafios fiscais e alcance limitado.

Para o economista André Galhardo, a proposta do IR vem em boa hora, ainda que atrasada. Já o crédito consignado pode beneficiar parte da população endividada. Mas ele alerta: isso não resolve o problema estrutural. “Quem não tem FGTS ou não declara IR continua fora da conta. E o risco é gerar mais pressão sobre os juros no futuro”, diz.

Na avaliação do cientista político Carlos Melo, o governo precisa encontrar maneiras de atingir os brasileiros mais pobres e informais. “Esse público ainda não sente melhora real. E sem isso, a impopularidade tende a crescer.”

Na comparação com os mandatos anteriores, o contraste é nítido. Em 2010, Lula deixou o Planalto com 87% de aprovação. Hoje, vê sua imagem abalada por crises econômicas, escândalos passados e um capital político enfraquecido. Segundo analistas, parte disso é herança da gestão Dilma Rousseff, do impeachment, da Lava Jato e do mensalão.

Lula ainda não confirmou se será candidato em 2026. Mas segue sendo o nome mais forte da esquerda. O problema é que, para chegar competitivo, precisa entregar resultados. E o tempo está correndo.

As despesas obrigatórias seguem subindo. O governo enfrenta pressões com precatórios, BPC e folha de pagamento. A Selic deve encerrar o ano em 15%, o que dificulta o crescimento econômico. E sem receita forte, o espaço para novas promessas se estreita.

A poucos meses do ciclo eleitoral, o Planalto se vê diante de um dilema: tentar agradar o eleitor com alívio no bolso ou manter o compromisso com o equilíbrio fiscal. Ambas as opções têm custo político. E qualquer erro pode custar caro nas urnas.

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