A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã voltou a provocar instabilidade na economia global. Entre os efeitos mais imediatos está a alta nos preços de commodities, como petróleo, fertilizantes e alimentos — movimento que reacende um antigo debate: o Brasil poderia viver um novo boom das commodities.
Nos últimos dias, analistas passaram a observar uma valorização significativa de matérias-primas no mercado internacional. Um dos principais indicadores desse movimento, o índice CRB, que acompanha o preço de commodities como energia e alimentos, atingiu recentemente o maior nível desde 2011.
Grande parte dessa pressão está ligada ao bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo. Por ali passa cerca de um terço do comércio global de fertilizantes, além de grandes volumes de petróleo e gás natural.
O Irã também é um importante exportador de ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais usados na agricultura mundial. Com o conflito e a interrupção parcial do fluxo comercial na região, o mercado teme redução na oferta global desses insumos.
Esse cenário costuma gerar um efeito em cadeia. O aumento do preço da energia encarece a produção agrícola e eleva o valor dos alimentos, criando pressão inflacionária em diversos países.
Brasil pode se beneficiar, mas cenário é diferente do passado
A valorização das commodities levanta a possibilidade de ganhos para países exportadores de matérias-primas. Nesse grupo está o Brasil, um dos maiores produtores agrícolas do planeta e também um importante exportador de petróleo.
A economia brasileira já passou por um período semelhante entre o início dos anos 2000 e o começo da década de 2010, quando ocorreu o chamado boom das commodities. Na época, a forte expansão da economia chinesa impulsionou a demanda global por matérias-primas.
Entre 2002 e 2011, o crescimento acelerado da indústria chinesa elevou o consumo de minério de ferro, soja e petróleo. O resultado foi uma valorização histórica desses produtos, beneficiando países exportadores como o Brasil.
Atualmente, porém, o contexto global é diferente. A economia da China desacelerou e deve crescer menos de 5% neste ano, o menor ritmo em décadas. Esse fator limita a possibilidade de um ciclo de alta tão intenso quanto o observado no passado.
Mesmo assim, especialistas avaliam que o Brasil pode registrar ganhos moderados com a valorização das commodities.
Hoje, por exemplo, cerca de 80% da soja exportada pelo Brasil tem como destino a China. O país asiático também compra grande parte do minério de ferro e do petróleo brasileiro.
Se os preços internacionais subirem, a receita das exportações brasileiras pode aumentar — mesmo que os volumes vendidos permaneçam semelhantes.
Ganhos podem vir no longo prazo, mas curto prazo preocupa
Economistas apontam que o Brasil pode se tornar mais atrativo para investimentos em momentos de instabilidade geopolítica. Por estar distante da região de conflito e manter uma postura diplomática mais neutra, o país tende a ser visto como um mercado relativamente seguro.
Essa percepção pode estimular investimentos em setores como agricultura, energia e infraestrutura.
No entanto, os efeitos positivos podem levar tempo para aparecer. No curto prazo, o cenário é mais incerto.
A alta do petróleo e dos fertilizantes tende a pressionar custos de produção e transporte. Isso pode resultar em aumento de preços internos, afetando diretamente consumidores brasileiros.
Além disso, quando as commodities se valorizam no mercado externo, produtores costumam direcionar parte maior da produção para exportação. Como consequência, os preços domésticos também podem subir.
Analistas destacam que guerras costumam gerar impactos econômicos amplos e difíceis de prever. Mesmo países exportadores podem enfrentar efeitos negativos no curto prazo.
Assim, embora o Brasil possa se beneficiar parcialmente da alta das commodities, especialistas avaliam que o cenário atual dificilmente repetirá o ciclo extraordinário observado nas décadas passadas.
