A primeira semana da campanha de segundo turno da eleição presidencial consolidou um desenho claro de forças em Brasília. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) acumula adesões de partidos que ficaram fora da disputa ou se mantiveram neutros no primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue apoiado exclusivamente na coligação com que entrou na corrida e trabalha para atrair lideranças individuais do centrão. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro.
O movimento mais relevante ocorreu na quarta-feira (7), quando o Republicanos oficializou o apoio ao candidato do PL. Segundo levantamento do jornal O Tempo, o anúncio foi feito pelo presidente nacional da legenda, o deputado Marcos Pereira, durante encontro com Flávio na capital federal, em uma articulação que contou com a participação do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O Republicanos havia permanecido neutro na primeira etapa da disputa.
No mesmo dia, o Novo formalizou sua adesão, seguindo o caminho já trilhado por Romeu Zema, que disputou a Presidência pela sigla e declarou voto em Flávio logo na segunda-feira (5). Um dia antes, a federação União Progressista, que reúne União Brasil e PP, havia divulgado nota de apoio após reunião com parlamentares e com os dirigentes Ciro Nogueira e Antonio Rueda. Com isso, o senador soma quatro partidos que aderiram à sua candidatura nesta fase, de acordo com balanço publicado pelo O Povo. Nesta quinta-feira (8), o Podemos também anunciou que estará ao lado do candidato do PL, após um café da manhã no comitê de campanha, no Lago Sul.
A ofensiva por apoios busca transformar em vantagem estrutural o resultado apertado de domingo (4). Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença inferior a dois pontos percentuais que mantém a disputa aberta. Além das siglas, o senador recebeu o respaldo individual de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás que concorreu pelo PSD, e do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, que prometeu empenho na Bahia, estado tradicionalmente favorável ao PT. A campanha também se reuniu nesta quinta-feira com governadores eleitos em Brasília para ampliar a capilaridade nos estados.
Do lado governista, o quadro é de estabilidade, mas sem novas adesões nacionais. Lula mantém a aliança de sete partidos que o acompanhou desde o início: a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, além do PSB, do PDT e da federação PSOL-Rede. Essa coalizão garantiu ao petista o maior tempo de propaganda no rádio e na TV no primeiro turno, vantagem que desaparece agora, já que as regras do Tribunal Superior Eleitoral dividem o horário igualmente entre os dois finalistas. O presidente tenta manter próximos nomes do centrão com peso no Congresso, como o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mesmo após a decisão nacional de seu partido.
Três legendas de peso ainda não se posicionaram formalmente. O PSD, comandado por Gilberto Kassab, decidiu manter a neutralidade apesar do gesto de Caiado. O MDB liberou seus filiados enquanto o presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, consulta os diretórios regionais. Já o PSDB ouve as seções estaduais antes de uma decisão, e a maioria das direções consultadas teria se inclinado a favor de Flávio, segundo o O Tempo.
A definição desses partidos e o comportamento do eleitorado que se absteve ou votou em candidatos derrotados devem pesar nas próximas semanas. No primeiro turno, mais de 33 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, contingente que a campanha petista já elegeu como prioridade. A expectativa em Brasília é de que as primeiras pesquisas de segundo turno, previstas para os próximos dias, indiquem se a vantagem de Flávio em apoios partidários se traduz em intenção de voto ou se Lula consegue reverter a diferença com a mobilização de sua base.
