Documentos internos e depoimentos de corretores apontam que a correção da redação do Enem 2025 seguiu orientações distintas das aplicadas em anos anteriores. Embora as cinco competências avaliadas tenham sido mantidas, especialistas afirmam que especificações novas e não divulgadas publicamente impactaram as notas de milhares de candidatos. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira nega mudanças e sustenta que a igualdade entre participantes foi preservada.
Relatos de estudantes com histórico consistente de notas altas ajudam a dimensionar a controvérsia. Candidatos que vinham pontuando acima de 900 registraram quedas abruptas em 2025. Desde a divulgação dos resultados, em janeiro, publicações nas redes sociais levantaram suspeitas de maior rigidez e de subjetividade na correção. Diante disso, a reportagem teve acesso a documentos sigilosos, e-mails e relatos de avaliadores que descrevem alterações suficientes para modificar o resultado final.
Três ajustes que teriam alterado a avaliação
O primeiro ponto envolve a competência 4, ligada ao uso de elementos coesivos. Antes, havia parâmetros objetivos, com contagem de conectivos para definição da nota. Em 2025, esse critério teria sido substituído por classificações qualitativas, como presença “pontual”, “regular” ou “expressiva”. Assim, segundo corretores, perdeu-se a referência numérica, o que abriu espaço para interpretações diferentes entre bancas.
Além disso, a competência 5 passou a prever punição maior quando o candidato deixava de apresentar o elemento “ação” na proposta de intervenção. Embora a regra geral de perda de pontos por ausência de um dos cinco itens já existisse, uma orientação adicional teria elevado a penalidade nesse caso específico. Na prática, candidatos teriam perdido mais pontos do que esperavam, mesmo mantendo os demais elementos.
Por fim, houve ampliação do peso atribuído ao repertório sociocultural. Um documento complementar, enviado após os treinamentos, teria orientado que referências consideradas fracas fossem punidas em duas competências, e não apenas em uma. Segundo avaliadores ouvidos pela reportagem, esse ajuste explica parte da queda generalizada nas notas, sobretudo entre quem evitou modelos prontos, mas não contextualizou suficientemente as citações.
O Inep afirma que não houve alteração de critérios, que os corretores e a instituição aplicadora foram os mesmos e que o sistema de dupla correção garante equilíbrio. Ainda assim, especialistas alertam que mudanças não comunicadas são problemáticas, sobretudo porque o Sisu passou a aceitar notas de três edições diferentes para a seleção de 2026. Nesse cenário, candidatos avaliados sob regras mais rígidas teriam concorrido em desvantagem.
Somam-se a isso críticas às condições de trabalho dos corretores, que relatam remuneração baixa, alto volume diário de textos e ruídos na comunicação durante a capacitação. Para professores e coordenadores de redação, o episódio expõe fragilidades no processo avaliativo e reforça a necessidade de transparência.
