O mercado financeiro apostou em Flávio Bolsonaro e pagou caro pela aposta. No primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Bolsa brasileira teve a maior queda percentual desde março de 2020. O Ibovespa fechou a segunda-feira (26) em baixa de 13,88%, aos 176.608 pontos, o menor nível desde o fim de agosto. Logo na abertura, a queda passou de 10% e a B3 acionou o circuit breaker, interrompendo as negociações por meia hora pela primeira vez em seis anos.
No câmbio, o tombo foi igualmente histórico. O dólar subiu 8,36% e fechou a R$ 5,406, a maior alta diária frente ao real em 23 anos, e os juros futuros saltaram mais de 260 pontos-base. A virada desfaz em um único dia o rali que se seguiu ao primeiro turno, quando o Ibovespa disparou quase 10%, bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5 com a liderança surpreendente de Flávio.
A explicação dos analistas é direta. Boa parte dos investidores vinha incorporando aos preços a expectativa de uma equipe econômica mais rígida com os gastos públicos, cenário associado à vitória do candidato do PL, segundo a análise do Brasilianista. Com Lula, a conta fiscal volta a ser a principal dúvida, e a definição do novo ministro da Fazenda passa a ser o evento mais aguardado pelo mercado.
No setor de energia, a Petrobras caiu menos que o índice, mas não escapou. A ação preferencial PETR4 recuou 8,18%, para R$ 53,88. A alta do petróleo amorteceu as perdas, mas a vitória petista reacende as dúvidas de sempre sobre a política de preços dos combustíveis, o pagamento de dividendos e o uso da estatal como instrumento de governo. Há ainda contas pendentes, como a crise financeira da Braskem, em que a Petrobras resiste a fazer um aporte isolado, tema já tratado pela LatAm Reports.
A mineração foi a exceção. Com receitas em dólar e forte exposição à China, a Vale funcionou como proteção contra o câmbio e chegou a subir mais de 4% durante o pregão, na contramão da Bolsa. O setor, no entanto, tem suas próprias pendências com Brasília: a indústria de minerais críticos alertou que a demora na regulamentação do novo marco legal está travando investimentos, e a mesma pressão política que levou a Vale a engavetar o IPO de sua unidade de metais básicos deve se manter no quarto mandato.
Nem todos enxergam só risco. A gestora Gavekal recomendou a compra de ativos brasileiros após a queda, citando os juros altos e o peso das commodities, e o mercado ensaiou recuperação na terça-feira (27). A direção dos próximos meses vai depender dos primeiros sinais do novo governo sobre a política fiscal e sobre a gestão das estatais. Leia mais na editoria de Negócios da LatAm Reports.
