O Banco Central autorizou, em julho de 2025, a transferência de controle de uma instituição financeira para o empresário Augusto Lima, ex-sócio relevante do Banco Master, mesmo quando já havia alertas internos e apurações em curso sobre suspeitas de fraudes envolvendo carteiras de crédito consignado ligadas ao próprio Master. A decisão ocorreu poucos dias depois de a autarquia ter formalizado uma denúncia ao Ministério Público Federal apontando indícios de irregularidades no banco controlado por Daniel Vorcaro.
Augusto Lima chegou a ser preso em novembro do ano passado, durante a Operação Compliance Zero, ao lado de Vorcaro e outros executivos. Todos foram soltos posteriormente e passaram a usar tornozeleira eletrônica. Agora, Lima e demais investigados devem prestar depoimento à Polícia Federal entre o fim de janeiro, conforme cronograma ainda em discussão no Supremo Tribunal Federal.
De acordo com documentos do Banco Central e decisões judiciais analisadas no inquérito, as suspeitas começaram a ganhar força em março de 2025. Naquele momento, a autarquia identificou movimentações atípicas ligadas à venda de carteiras de crédito consignado, negócio diretamente associado à atuação de Lima no Master. Ainda assim, em 24 de julho, o BC autorizou que ele assumisse o controle do então Banco Voiter, antigo Indusval, que havia sido comprado pelo próprio Master meses antes.
Pouco depois da operação policial, o regulador afastou Lima da gestão cotidiana do banco, que passou a se chamar Banco Pleno e segue operando com foco no segmento empresarial.
Mesmo assim, o episódio levantou questionamentos dentro e fora do mercado sobre o grau de rigor aplicado na análise da transferência de controle, especialmente porque o empresário havia sido um dos principais sócios do Master até 2024.
As investigações apontam que o ponto de partida do caso foi um fluxo de R$ 12,2 bilhões do Banco de Brasília para o Master, referente à compra de carteiras de crédito consignado. Questionado pelo BC, o Master afirmou inicialmente que os créditos haviam sido originados por associações de servidores públicos da Bahia. A versão, no entanto, não se sustentou após análises técnicas, já que as entidades não teriam capacidade financeira compatível com os valores envolvidos.
Ex-sócio no centro das apurações
Decisões judiciais indicam que Augusto Lima mantinha vínculos diretos com essas associações, incluindo procurações para representá-las junto a instituições financeiras. Além disso, registros apontam que o telefone de contato das entidades coincidia com o de uma empresa de sua propriedade. Esses elementos reforçaram a suspeita de que as associações teriam sido usadas como suporte para uma narrativa considerada falsa sobre a origem dos créditos.
A defesa de Lima afirma que ele deixou o Banco Master em maio de 2024 e que as operações investigadas são posteriores à sua saída. Os advogados sustentam que ele não participou das decisões relacionadas às carteiras de crédito sob suspeita e que a apuração demonstrará a inexistência de vínculo entre o empresário e as fraudes investigadas.
O Banco Central, por sua vez, informou que não comenta casos relacionados ao Master por estarem sob sigilo. Pessoas que acompanham o processo afirmam que a autarquia sustenta que todas as decisões tomadas seguiram a regulamentação vigente, especialmente a resolução do Conselho Monetário Nacional que estabelece critérios de liquidez, solvência e antecedentes dos controladores de instituições financeiras.
O contraste com outro episódio do mesmo período chama atenção. No mesmo dia em que autorizou a transferência do Voiter para Lima, o BC negou pedido semelhante feito por outro ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, sob o argumento de que ele não conseguiu comprovar capacidade financeira nem a origem lícita dos recursos. Quadrado também virou alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero.
O caso Master, que já é tratado por autoridades como um dos maiores escândalos financeiros recentes, segue ampliando suas ramificações. Além das suspeitas de fraude bancária, há disputas institucionais envolvendo o Banco Central, o Tribunal de Contas da União e a Polícia Federal, enquanto investidores aguardam definições sobre prejuízos e eventuais responsabilizações.
