Acordo UE-Mercosul redefine espaço do agro brasileiro no mercado europeu

A União Europeia deu aval político, nesta sexta-feira (9), ao acordo de livre comércio com o Mercosul, abrindo caminho para a assinatura formal entre os blocos nos próximos dias. Para o Brasil, o tratado representa uma reconfiguração estratégica do comércio agrícola, em um momento de maior instabilidade nas relações com outros grandes compradores globais.

Embora o acordo envolva diferentes setores da economia, o agro concentrou as maiores resistências ao longo das negociações. Produtores europeus, especialmente na França e na Polônia, protestaram contra a possível entrada de produtos sul-americanos mais competitivos. Ainda assim, o bloco avançou, considerando o contexto geopolítico e comercial atual.

Para o Brasil, o acordo ganha peso adicional após a retração das exportações agrícolas para os Estados Unidos em 2025, impactadas pelo tarifaço imposto durante o governo de Donald Trump. Mesmo com a retirada parcial das sobretaxas, parte relevante do agro brasileiro segue enfrentando barreiras naquele mercado.

O que muda para o agro brasileiro

O acordo prevê a eliminação gradual das tarifas de importação de cerca de 77% dos produtos agropecuários comprados pela União Europeia do Mercosul. Com isso, itens como café, frutas, peixes, crustáceos e óleos vegetais terão as taxas reduzidas até zerarem, em prazos que variam entre quatro e dez anos.

Esse movimento tende a ampliar a competitividade do agro brasileiro em um mercado que já é seu segundo maior destino, atrás apenas da China. Ao mesmo tempo, o tratado eleva o Mercosul ao status de parceiro preferencial da UE, o que reduz riscos de exclusão futura em disputas comerciais.

As carnes permanecem como o ponto mais sensível. Produtos bovinos e de frango entram no acordo com cotas específicas, consideradas uma forma de proteção ao produtor europeu. Ainda assim, o novo desenho abre espaço para crescimento gradual das exportações, desde que respeitados os volumes estabelecidos.

No caso da carne bovina, por exemplo, parte das tarifas hoje aplicadas tende a ser eliminada, enquanto uma cota conjunta entre os países do Mercosul permitirá acesso com taxação reduzida. Já no setor de aves, a criação de uma nova cota anual com tarifa zero é vista pelo setor como adicional às regras já existentes.

Café ganha competitividade, soja fica fora

No café, o impacto é mais direto. Embora o grão já entre na Europa sem tarifa, produtos industrializados, como o café solúvel, ainda enfrentam taxas que reduzem a competitividade brasileira. Com o acordo, essas tarifas serão zeradas em até quatro anos, o que pode reposicionar o Brasil frente a concorrentes asiáticos.

Além disso, o tratado pode estimular investimentos europeus na indústria cafeeira brasileira, ampliando o valor agregado da produção nacional.

Por outro lado, a soja deve permanecer praticamente inalterada. O produto já conta com tarifa zero para grão e farelo, o que faz com que o acordo não altere, na prática, as condições atuais de acesso ao mercado europeu.

Salvaguardas e tensões futuras

Apesar dos avanços, o acordo inclui mecanismos de salvaguarda aprovados internamente pela União Europeia. Na prática, eles permitem a suspensão temporária dos benefícios tarifários caso as importações do Mercosul sejam consideradas prejudiciais a setores sensíveis do agro europeu.

Esse ponto gera preocupação no Brasil, sobretudo pela possibilidade de aplicação rápida dessas medidas. Analistas alertam que, dependendo do uso político das salvaguardas, o instrumento pode funcionar como uma barreira disfarçada ao livre comércio.

Ainda assim, o governo brasileiro e entidades do setor avaliam que o acordo cria um novo patamar de previsibilidade e integração comercial, mesmo com zonas de tensão que devem permanecer no médio prazo.