A prisão da influenciadora Deolane Bezerra nesta quinta-feira (21) começou com bilhetes escondidos em uma caixa de esgoto. Em 2019, agentes penitenciários encontraram manuscritos na cela de líderes do PCC no presídio de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. O material continha ordens internas da facção, contatos com o alto escalão e planos para matar funcionários do sistema prisional.
Sete anos depois, a cadeia de investigações levou à Operação Vérnix, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil. Deolane é acusada de receber dinheiro da facção por meio de um esquema de lavagem que utilizava uma transportadora de cargas fantasma. A Justiça bloqueou R$ 27 milhões em bens e valores atribuídos à influenciadora, que tem mais de 21 milhões de seguidores nas redes sociais.
Como a investigação chegou a Deolane
Os bilhetes apreendidos em 2019 estavam com Gilmar Pinheiro Feitoza, apontado como liderança do PCC dentro do presídio, e Sharlon Praxedes da Silva, conhecido como “Maradona”. Os manuscritos mencionavam uma “mulher da transportadora”, responsável por levantar endereços de agentes públicos para viabilizar ataques. Por essa razão, um segundo inquérito foi aberto para identificar a mulher e investigar a ligação entre a empresa Lado a Lado Transportes e a facção.
Em 2021, a Operação Lado a Lado aprofundou as apurações. A polícia apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema. Segundo a investigação, Ciro comprava caminhões, movimentava recursos da cúpula do PCC e executava ordens de Marcola e do irmão dele, Alejandro Camacho. Além disso, administrava patrimônio em nome dos dois.
A análise do celular revelou depósitos direcionados a contas de Deolane e de Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da organização. Contudo, a polícia afirma que não encontrou prestação de serviços compatível com os valores recebidos pela influenciadora.
Os números da investigação
Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil. Essa prática é conhecida como “smurfing” e serve para dificultar o rastreamento financeiro. Outrossim, quase 50 depósitos foram feitos em duas empresas ligadas a ela, totalizando R$ 716 mil. Os valores partiram de uma empresa cujo responsável recebe cerca de um salário mínimo por mês.
Segundo os investigadores, a projeção pública de Deolane, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial funcionavam como “camadas de aparente legalidade”. Dessa forma, dificultavam a identificação da origem ilícita do dinheiro.
Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva. A Justiça também determinou bloqueios financeiros de R$ 357,5 milhões e a apreensão de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões. Marcola, líder do PCC e já preso na Penitenciária Federal de Brasília, também é alvo de mandado na operação. Todavia, familiares dele — incluindo a sobrinha Paloma Sanches, foragida na Espanha — também constam entre os investigados.
O advogado de Deolane, Luiz Imparato, disse que está “se inteirando dos fatos”. A defesa de Marcola também afirmou que vai analisar o caso.
