Eles prometem disposição, libido e qualidade de vida. Vendem os implantes como tratamento para menopausa, ovários policísticos e endometriose. O problema é que nenhuma dessas promessas tem respaldo científico. Na prática, segundo sociedades médicas e a própria Anvisa, os pellets hormonais têm ação anabolizante — servem para ganhar massa muscular e produzir efeito estético. E uso estético está proibido.
“O que se vende, na prática, é doping com receita médica”, afirma o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Por trás do discurso terapêutico, existe um modelo de negócio milionário. Médicos prescrevem os implantes, treinam outros profissionais em cursos pagos e mantêm relação com farmácias de manipulação que fornecem o produto. Os pellets custam cerca de R$ 200 e são revendidos a pacientes por valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil.
A brecha que alimenta o mercado
O mercado se sustenta em uma falha regulatória. Em outubro de 2024, a Anvisa chegou a proibir totalmente a manipulação e o uso desses implantes. Contudo, a reação de farmácias, clínicas e médicos foi imediata. Dezenas de recursos administrativos foram apresentados. Pouco mais de um mês depois, a agência voltou atrás. Manteve o veto para fins estéticos, mas liberou a manipulação para usos terapêuticos em condições mais restritas.
A mudança abriu espaço para um reposicionamento. Sem poder anunciar os pellets como solução estética, médicos passaram a apresentá-los como tratamento para condições clínicas. Todavia, especialistas alertam que não há evidência robusta para essas indicações nessa forma de uso. Além disso, os implantes carregam riscos graves: infarto, AVC, trombose e, em alguns casos, morte.
Outra brecha agrava o problema. A legislação permite que qualquer ingrediente farmacêutico aprovado pela Anvisa seja manipulado — mas não especifica a via de administração. Por essa razão, farmácias produzem pellets com substâncias como ocitocina e metformina, prometendo emagrecimento e “destravamento do metabolismo”, sem qualquer comprovação científica.
Produção em escala industrial
Pela lei, farmácias de manipulação só podem produzir os implantes de forma individual, sob prescrição específica. Contudo, o g1 teve acesso a registros da Elmeco — uma das maiores do país — que mostram pedidos de 400 implantes padronizados de gestrinona e testosterona. Ou seja, produção em larga escala, o que é irregular.
O Ministério Público da Bahia pediu em novembro de 2025 a interdição da empresa por manipulação e venda de medicamentos controlados sem prescrição médica. A Elmeco afirma que atua “em estrita conformidade com as normas sanitárias vigentes”.
Esquema une prescrição, cursos e venda
A investigação do g1 revelou um circuito que conecta três pontas: médicos que prescrevem, cursos que treinam novos prescritores e farmácias que fornecem os implantes. Esse modelo ficou público no caso da Unikka Pharma, farmácia investigada pela Polícia Federal na Operação Slim. Segundo a PF, o médico Gabriel Almeida era sócio oculto da empresa e oferecia cursos para ensinar outros profissionais a lucrar com o produto.
Padrão semelhante aparece na atuação do médico Luiz Paulo Schaefer Pinto. Ele se apresenta como presidente da Sociedade Brasileira de Hormonologia — área que o CFM não reconhece como especialidade. Luiz Paulo oferece cursos sobre implantes em eventos de grande porte, com patrocínio da Bio Meds, farmácia ligada a uma holding da qual ele faz parte. No consultório, cobra consultas a partir de R$ 2,5 mil. Nas redes sociais, ostenta uma vida de luxo.
Em março de 2026, a Anvisa identificou que a Bio Meds produzia medicamentos em grande volume sem pedido médico prévio. A fiscalização também apontou ausência de testes de controle e risco de contaminação. Anteriormente, em 2024, Luiz Paulo teve o registro médico suspenso por 30 dias pelo CFM por divulgar informação médica de forma “sensacionalista e inverídica”. Mesmo assim, segue ativo nas redes com mais de 200 mil seguidores.
O ginecologista Bruno Jacob, aluno de Luiz Paulo, também aparece nessa rede. Com meio milhão de seguidores no Instagram, ele promove a Bio Meds em vídeos e participa de cursos como instrutor. Procurado, Luiz Paulo disse não ter interesse em falar com a reportagem.
Mulheres como principal alvo
O g1 identificou que as mulheres são o centro desse mercado. Em publicações nas redes sociais, médicos associam alterações hormonais a uma perda ampla de vitalidade. As promessas envolvem melhora da libido, disposição e desempenho nos treinos. Por conseguinte, inseguranças íntimas se transformam em argumento de venda.
O médico Lázaro Lourenço oferece um curso de R$ 996 voltado a profissionais interessados em prescrever hormônios. Além da capacitação técnica, ensina estratégias para faturar. Em uma das aulas, orienta os alunos a abordar diretamente temas como autoestima e medo de traição. “Você vai botar mais lenha na fogueira para que o seu produto seja aquilo que ele está precisando”, afirmou durante o curso.
Em nota, Lourenço disse que os cursos têm “caráter técnico-científico” e que trechos isolados podem ter sido interpretados fora de contexto. A Febrasgo, consultada pelo g1, afirmou que esse tipo de abordagem reduz queixas complexas da saúde feminina a um exame isolado. O CFM classifica a prática como possível “mercantilização da medicina” e aponta potencial infração ao Código de Ética Médica.
Outrossim, o conselho reforça que a prescrição de implantes hormonais com fins estéticos contraria normas sanitárias e pode configurar infração ética em dois artigos distintos do código. Após a publicação da reportagem, o CFM informou que os casos citados serão investigados.
