Ladrões de celulares em São Paulo estão gravando os próprios crimes e publicando os vídeos nas redes sociais. As imagens, que já acumulam milhares de visualizações, mostram ações em diferentes pontos da capital — de furtos cometidos em bicicletas a ataques com quebra de vidro de carros e abordagens no metrô.
Em muitos casos, um comparsa acompanha a ação apenas para filmar. As gravações registram tudo: a investida, a fuga e até comemorações após o crime. Além dos vídeos, os perfis também exibem fotos de celulares roubados — muitas vezes com imagens pessoais das vítimas na tela — e maços de dinheiro.
O g1 encontrou dezenas de contas no Instagram com esse tipo de conteúdo. Em todas, os responsáveis citam o artigo 155 do Código Penal, que trata do crime de furto. As publicações foram inicialmente descobertas pela Folha de S. Paulo.
Um celular roubado a cada 10 minutos
Apesar de os dados do governo paulista apontarem uma queda de 20% nos roubos de celular no primeiro bimestre de 2026, comparado ao mesmo período do ano anterior, a realidade ainda é alarmante. Na capital, a média é de um roubo de celular a cada 10 minutos.
Pinheiros, na Zona Oeste, lidera o ranking de bairros com mais ocorrências. Entre janeiro e fevereiro, foram registrados 2.303 casos — 39 por dia. O número representa um aumento de mais de 47% em relação ao mesmo período de 2025, quando o bairro já ocupava o primeiro lugar.
Outros bairros também sofrem com a criminalidade: Perdizes registrou 1.880 casos, seguido pela Sé (1.846), Consolação (1.781) e Campos Elíseos (1.656).
O empresário André Kohn, que circula diariamente por Pinheiros, disse que anda com atenção redobrada. “Está perigoso. A gente tem que tomar cuidado, ficar ressabiado com a situação.”
Especialista cobra ação das plataformas e da polícia
Para o professor da FGV-SP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, os vídeos fazem parte de uma subcultura criminosa. Segundo ele, os bandidos buscam reputação perante outros criminosos ao exibir suas ações nas redes.
Alcadipani defendeu que as plataformas não podem permitir que conteúdos flagrantemente criminosos permaneçam no ar — independentemente de haver boletim de ocorrência registrado. Ele também cobrou investigação da polícia. “Não é difícil investigar esses perfis e prender os responsáveis,” afirmou.
Até a noite de segunda-feira (20), as contas localizadas pelo g1 permaneciam disponíveis no Instagram.
O que dizem Meta e SSP
A Meta afirmou que suas políticas não permitem conteúdo que promova ou glorifique atividades criminosas. A empresa disse que remove publicações quando identifica violações e que colabora com autoridades. Ainda assim, os perfis seguiam no ar.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que, até o momento, não foram encontrados boletins de ocorrência diretamente ligados aos perfis mencionados. A pasta orientou que eventuais crimes vistos nas redes sejam comunicados formalmente à polícia e que denúncias anônimas podem ser feitas pelo Disque 181.
A SSP também informou que a delegacia de Pinheiros registrou queda de 3,49% nos roubos no primeiro bimestre. Desde 2023, segundo a pasta, mais de 50 mil prisões foram feitas na capital no combate a roubos e furtos.
