“Filho, se salva”: adolescente relata últimos momentos com a mãe antes de naufrágio em Manaus

Photo of author

By LatAm Reports Redatores da Equipe

O que era para ser uma viagem em família rumo ao Carnaval terminou em tragédia no Amazonas. João Henrique, de 17 anos, sobreviveu ao naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, ocorrido na última sexta-feira (13), próximo ao Encontro das Águas, em Manaus. Antes de desaparecer, a mãe dele, Apoliana Almeida, entregou o próprio colete salva-vidas ao filho e disse: “filho, se salva”.

A embarcação saiu de Manaus com destino a Nova Olinda do Norte. No trajeto, afundou por volta das 12h30. Segundo o Corpo de Bombeiros, 71 pessoas foram resgatadas com vida. Duas morreram — uma criança e uma jovem de 22 anos — e sete seguem desaparecidas.

João contou que estava sem colete quando a mãe decidiu protegê-lo. Ele sabe nadar. Ela não. Mesmo assim, priorizou a vida do filho. “Ela ficou segurando em mim, mas o desespero bateu. Depois que falou para eu me salvar, sumiu”, relatou o adolescente.

Buscas enfrentam correntes fortes e profundidade elevada

As operações de resgate continuam. A embarcação foi localizada a cerca de 50 metros de profundidade. Equipes do Corpo de Bombeiros e da Marinha do Brasil atuam com mergulhadores, drones, embarcações e aeronaves.

De acordo com o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Muniz, o local do acidente impõe dificuldades técnicas. As correntes do Rio Solimões são mais intensas. Além disso, há diferenças de densidade e temperatura entre as águas do Negro e do Solimões, o que altera o comportamento da correnteza.

Nesta segunda-feira (16), um corpo foi encontrado durante as buscas. Até o momento, não há confirmação de identidade.

Outro sobrevivente da mesma família é Benjamin, que foi colocado dentro de um cooler até a chegada do socorro. A mãe dele, Dyulia Morais, descreveu o momento como desesperador. Apesar da gratidão pela vida do filho, ela vive a angústia pela ausência do sogro, Romualdo de Almeida, de 80 anos, também desaparecido, assim como Apoliana.

Antes da viagem, Apoliana demonstrava receio. Segundo familiares, ela comentou que tinha medo de lancha. Ainda assim, embarcou com a família.

Investigação e responsabilização

O comandante da lancha, José Pedro da Silva Gama, foi preso em flagrante. Após pagamento de fiança, foi liberado. Ele responderá por homicídio culposo. A Justiça solicitou a prisão preventiva no sábado (14).

Uma passageira relatou, em vídeo gravado à deriva, que havia pedido ao piloto para reduzir a velocidade devido ao banzeiro — ondas típicas da região. As imagens mostram passageiros na água aguardando resgate.

A Marinha informou que abriu inquérito para apurar as causas do acidente. Paralelamente, a Polícia Civil investiga responsabilidades.

Enquanto isso, famílias aguardam respostas. “As famílias querem pelo menos informações oficiais”, disse Romualdo Almeida Filho, que segue à espera de notícias do pai e da madrasta.