Aos 35 anos, a maranhense Aylla Ferraz celebrou uma conquista que, para milhões de brasileiros, ainda parece distante: o primeiro emprego com carteira assinada. Contratada como operadora de caixa em um supermercado de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, Aylla compartilhou o momento em vídeo nas redes sociais. A publicação rapidamente ganhou repercussão e passou a simbolizar uma realidade enfrentada por grande parte da população trans no país.
A comemoração vai além da formalização do trabalho. Para Aylla, o registro em carteira representa reconhecimento, dignidade e acesso a direitos básicos que lhe foram negados por décadas. Antes disso, ela havia trabalhado como faxineira, empregada doméstica e cozinheira, sempre de forma informal. Ainda assim, nunca deixou de buscar uma oportunidade que lhe permitisse atuar diretamente com o público.
Dados reforçam o peso dessa trajetória. Um estudo divulgado em 2024 apontou que apenas 0,38% dos empregos formais no Brasil são ocupados por pessoas trans. O número ajuda a explicar por que uma conquista individual se transforma em pauta coletiva, especialmente no Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro.
A luta por espaço no mercado de trabalho formal
Aylla relata que passou anos tentando acessar vagas formais. Muitas vezes, saía de casa ainda de madrugada para participar de mutirões de empregabilidade voltados à população trans. Mesmo chegando cedo e cumprindo os requisitos exigidos, voltava para casa sem uma resposta positiva. Segundo ela, o principal obstáculo era não se enquadrar no padrão de “passabilidade”, termo usado para descrever a expectativa de que pessoas trans sejam percebidas como cisgênero.
Essa exigência, ainda comum em processos seletivos, reforça desigualdades e exclui quem foge de padrões estéticos impostos socialmente. Como consequência, muitas pessoas trans acabam empurradas para trabalhos informais, precários ou invisíveis, longe do contato com o público e sem proteção trabalhista.
A história de Aylla também passa pela educação. Ela estudou apenas até o quarto ano do ensino fundamental e abandonou a escola ainda jovem por conta do preconceito. Hoje, com o emprego formal, fala em retomar os estudos e crescer profissionalmente. Segundo ela, o acolhimento no ambiente de trabalho tem sido fundamental para recuperar a autoestima e projetar novos planos.
O vídeo publicado nas redes recebeu milhares de comentários positivos e mensagens de apoio. Entre as curtidas, esteve a da cantora Pabllo Vittar, o que ampliou ainda mais o alcance da história. Para Aylla, a repercussão mostra que, apesar das barreiras, existe uma parcela da sociedade disposta a ouvir, apoiar e reconhecer essas trajetórias.
O contexto, no entanto, segue desafiador. O Brasil permanece como o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo dados de organizações de direitos humanos. Em 2025, ao menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no país. O perfil das vítimas segue marcado por recortes de raça, classe social e região, o que reforça a urgência de políticas públicas voltadas à inclusão e à proteção dessa população.
A conquista de Aylla não apaga esse cenário, mas lança luz sobre ele. Ao ocupar um posto formal de trabalho, ela rompe estatísticas e expõe, de forma concreta, o quanto o acesso ao emprego ainda depende mais de resistência do que de oportunidade.
