Juros reais no Brasil atingem maior nível em 20 anos com Selic mantida em 15%

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By LatAm Reports Redatores da Equipe

A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano levou o Brasil a registrar, em janeiro de 2026, o maior nível de juros reais dos últimos 20 anos. Com a expectativa de inflação em queda, a taxa real — que desconta a projeção inflacionária dos juros nominais — chegou a aproximadamente 10,6%, patamar não visto desde maio de 2006.

O movimento ocorre em um momento de relativa estabilidade da política monetária. O Comitê de Política Monetária decidiu, pela quinta vez consecutiva, manter a Selic inalterada. A decisão foi unânime e refletiu a leitura de que, apesar da desaceleração gradual da inflação, ainda existem riscos relevantes no cenário econômico.

Expectativa de inflação em queda pressiona juros reais para cima

O avanço da taxa real não se deve a um novo aumento dos juros nominais, mas sim à redução das expectativas inflacionárias. Segundo o último boletim Focus, a mediana das projeções para a inflação em 2026 recuou para cerca de 4%. Como resultado, o diferencial entre a Selic e a inflação esperada se ampliou.

Em 2006, último período com juros reais semelhantes, o Brasil também operava com Selic acima de 15% e inflação controlada. No entanto, especialistas apontam que, nos últimos 20 anos, juros reais acima de 10% não foram a regra. Historicamente, um patamar elevado girava em torno de 6% a 7%.

Para economistas, a persistência de juros reais tão altos revela limitações estruturais da política monetária no país. Parte do crédito no Brasil é direcionada, com taxas que não acompanham diretamente a Selic, como financiamentos habitacionais atrelados à poupança ou empréstimos via BNDES. Além disso, o spread bancário elevado reduz o impacto direto da taxa básica sobre o custo final do crédito.

Nesse contexto, o Banco Central tende a manter os juros em níveis mais altos por mais tempo para garantir a contenção da inflação. Segundo analistas, essa estratégia busca preservar a credibilidade da política monetária, especialmente após a transição no comando da autoridade monetária.

Outro fator que pesa sobre a decisão é o comportamento da inflação de serviços, considerada mais resistente. Mesmo com a desaceleração dos preços de bens, os custos ligados a serviços seguem pressionados, sustentados pelo crescimento do consumo e pelo impulso fiscal observado nos últimos anos.

Entre 2022 e 2024, os gastos públicos primários de União, estados e municípios cresceram em ritmo elevado, o que ajudou a sustentar a renda disponível das famílias. Esse cenário amplia a demanda e dificulta uma queda mais rápida da inflação, exigindo uma política monetária mais restritiva.

Diante disso, o mercado segue atento aos próximos passos do Banco Central. Embora parte dos analistas já discuta o início de um ciclo de cortes ao longo de 2026, o nível historicamente alto dos juros reais indica que qualquer flexibilização deverá ser gradual e condicionada a uma melhora mais consistente do cenário inflacionário e fiscal.