Racismo no futebol: silêncio das punições expõe falha estrutural no esporte sul-americano

Luighi, jovem promessa do Palmeiras sub-20, deixou o campo chorando após ser alvo de um gesto racista. Um torcedor do Cerro Porteño o imitou como um macaco durante partida da Libertadores sub-20. A cena gerou comoção nacional, mas também expôs um problema antigo: a impunidade.

Nos últimos dois anos, diversos episódios semelhantes ocorreram. O goleiro Éverson, do Atlético-MG, foi xingado no Paraguai. A zagueira Suelen Santos, do Bahia, foi chamada de “macaca” durante jogo do Campeonato Brasileiro Feminino. A reação das autoridades segue a mesma: multas e poucas punições reais.

De acordo com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, em 2023 houve 136 registros de racismo no esporte. Isso representa quase 40% a mais que em 2022.

O aumento de casos, no entanto, não é acompanhado de justiça. A maioria termina em arquivamento, pagamento de fiança ou penas alternativas.

No caso de Éverson, a Conmebol aplicou uma multa de 100 mil dólares ao Libertad. Nada mais. Já o treinador Hugo Duarte, que ofendeu Suelen, foi preso, mas liberado dias depois. Pagou cerca de R$ 42 mil de fiança. Em relação ao episódio com Luighi, não houve punição ao torcedor. O Paraguai não considera racismo um crime.

As sanções mais comuns partem da Conmebol. Entre elas, campanhas simbólicas, proibição de torcida e multas financeiras. Em poucos casos há condenações judiciais. Um exemplo raro foi o do preparador físico do Universitário. Ele foi condenado em São Paulo, mas teve sua pena convertida em multa.

Para Marcelo Carvalho, diretor do Observatório, o número crescente de denúncias é reflexo de maior consciência social. Jogadores e torcedores estão mais atentos. Porém, isso não significa avanços na punição. Segundo ele, o sistema jurídico ainda caminha devagar. A frase “o que acontece em campo, morre em campo” está em queda, mas a impunidade persiste.

Enquanto isso, atletas negros seguem sendo alvos de ofensas em campo e fora dele. Muitas vezes, diante do silêncio das autoridades e da leniência da Justiça. O futebol, que deveria ser espaço de união, ainda falha em garantir respeito e igualdade.

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